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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Gabriel, prosseguiu ela, conta partir amanhã, comigo pelo transporte da linha francesa. Eu me encarregarei das malas, e ele ganhará a rua logo depois do almoço. Hoje à noite já o dinheiro estará em meu poder. Tens por conseguinte de arranjar as cousas de modo que o bobo às quatro da tarde já esteja preso em lugar seguro, e nós perfeitamente senhores do campo, sem risco de que alguém nos possa tolher o vôo. Passaportes, licenças, bilhetes, tudo amanhã se achará em minhas mãos. Gabriel é muito pouco conhecido, tu facilmente passarás por ele... Se te falta, porém a coragem para tudo isto; se és homem medroso, um homem de meia resolução, melhor será que desde já desistas dos teus projetos. Sem uma boa dose de energia, nada se fará.

— Parece que zombas de mim, Ambrosina! Algum dia já me viste hesitar diante de qualquer embaraço? Juro­te por minha honra que Gabriel, amanhã às quatro horas da tarde, estará incomunicável!

E tu, por essa mesma ocasião, à minha procura lá em casa, não é verdade?

— Sim! Podes ter certeza. Mas ainda preciso do teu auxílio...

— Para quê?

— É preciso que deixes uma carta dirigida ao Gabriel, e que a faças chegar diretamente às mãos deste, amanhã pela volta das duas da tarde.

— Pois não, respondeu Ambrosina, sem conter um sorriso, que lhe provocava a consciência do fato. E assentou­se a uma mesa para escrever.

— Vamos lá! disse ela.

— "Gabriel" — ditou Melo Rosa.

— Nunca o trato, assim, observou Ambrosina; e escreveu, repetindo em voz alta:

— "Meu amor".

— Bem! concordou o Melo. Escreve agora:

"Hoje, às duas horas da tarde, é necessário que estejas presente à penhora que vai sofrer o nosso Jorge. Gaspar acha­se longe e não lhe pode valer. Fui tão protegida e obsequiada por aquela boa gente, que não tenho ânimo de ficar silenciosa em semelhante ocasião. Vai, pois, e socorre­os".

— Agora, assina.

— Espera, disse a rapariga. Preciso acrescentar alguma cousa por minha conta. E escreveu mais:

"Laura não assistirá à constrangedora ação da justiça, porque estará em minha companhia. É urgente que vás; precisamos, como sabes, dos serviços de Jorge para a nossa viagem...

"Escrevo­te, pela impaciência em que me vejo de comunicar­te esta desgraça. Agora mesmo foi que me chegou aos ouvidos tal notícia. Estimarei muito que esta carta seja completamente inútil, e que tu a estas horas tenhas restituído já a pobre família do cocheiro à sua primitiva tranqüilidade.

"Ao menos, em nossa viagem, levaremos ainda na alma o gosto de uma boa ação. Creio que melhor não nos poderíamos despedir da pátria.

‘Tua ­ Ambrosina."

— Agora, sim; disse ela, metendo a carta no envelope, depois de ler em voz alta o que escreveu. Pronto!

E subscritou­o com o nome de Gabriel.

Feito isto, a pérfida levantou­se declarando que não tinha tempo a perder. Havia muito ainda em que cuidar!

Melo Rosa queixava­se de que ela fosse assim, sem pagar ao amor os devidos tributos.

— Teremos depois muito tempo para isso, respondeu a visita já na porta do quarto. Coragem e energia, que será bem recompensado!

— Então, nem um beijo, Ambrosina?...

— Nada! Faze por merecê­lo... Adeus.

E, enquanto descia as longas escadas do sobradão, ia ela tecendo consigo as seguintes reflexões:

— Muito bem! Se os dois cumprirem com o que prometeram, amanhã estou eu completamente livre deles e senhora dos vinte contos de réis que me farão muito boa companhia! O Melo prenderá Gabriel, e Gabriel prenderá o Melo! E depois disso, ainda não estarão talvez bem convencidos de que são ambos uns grandíssimos tolos! Ah, homens! homens!

XXIX

DIA DA VIAGEM

Às quatro horas da tarde, Gabriel, como prometera, fazia parar o seu carro defronte da porta do cocheiro Jorge.

Ambrosina esperava por ele já vestida, ao lado de Laura. O pai desta andava fora no trabalho, e a velha Benedita fazia as honras da casa.

Gabriel ajudou as duas raparigas a tomarem lugar na sege. E seguiram alegremente os três para Laranjeiras.

Estavam em princípio de janeiro, num dia quente, e a viração da tarde fazia pensar na sesta preguiçosa e doce.

O carro atravessou a praia e entrou no Catete. Ambrosina tinha entre as mãos uma das mãos de Laura, a quem envolvia toda com um olhar de profunda ternura.

Aproximava­se o carnaval, e as grandes máscaras de papelão, expostas nas vitrinas e às portadas dos armarinhos, davam, com as suas cores absurdas, um aspecto alegre à rua. Viam­se balançar, como bandeiras, as roupas multicores destinadas à mascarada. Mulheres do povo brincavam entrudo com grande algazarra, e um português gordo, em mangas de camisa, queimava bichas chinesas ao lado de um quiosque.

O bairro parecia em festa.

Gabriel, entretanto, ia preocupado. Agora, que se aproximava o momento de partir, caía a pensar constantemente no padrasto. O bom amigo ia ficar sentido com aquela viagem. Mas que fazer?... Estava porventura em suas mãos desmanchá­la?... Perdido por pouco, perdido por muito! Agora, não era possível voltar atrás!...

E, para explicar­se com a consciência, dizia covardemente de si para si:

— Ora! O que tem de ser, traz força!

(continua...)

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