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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Finalmente chegou a hora da retirada, não da comadre, que se ofereceu para fazer companhia à viúva, porém de Leonardo, a quem esperava o major, porque era dia de serviço, e apenas tinha ele obtido licença para cumprir o duplo dever de dar os pêsames a D. Maria, e agradecer o interesse que por ele havia tomado, fazendo por intermédio de Maria-Regalada que o major não só lhe alcançasse perdão do castigo que lhe era destinado, como também o acesso de posto que repentinamente tivera.

Luisinha involuntariamente estendeu à despedida a mão ao Leonardo, que lha apertou com força.

Ora, isto naquele tempo era bastante para dar que falar ao mundo inteiro!

CAPÍTULO XLVIII

CONCLUSÃO FELIZ

A comadre passou com a viúva e sua tia quase todo o tempo do nojo, e acompanhou-as à missa do sétimo dia. O Leonardo compareceu também nessa ocasião, e levou a família à casa depois de acabado o sacrifício.

Aquele aperto de mão que no dia do enterro de seu marido Luisinha dera ao Leonardo não caíra no chão a D. Maria, assim como também lhe não escaparam muitos outros fatos consecutivos a esse.

O caso é que não lhe parecia extravagante certa idéia que lhe andava na mente.

Muitas vezes, ao cair de ave-maria, quando a boa da velha se sentava a rezar na sua banquinha em um canto da sala, entre um padre-nosso e uma ave-maria do seu bendito rosário vinha-lhe à idéia casar de novo a fresca viuvinha, que corria o risco de ficar de um momento para outro desamparada num mundo em que maridos, como José Manuel, não são difíceis de aparecer, especialmente a uma viuvinha apatacada.

Ao mesmo tempo que lhe vinha esta idéia lembrava-se do Leonardo, que amara a sua sobrinha no tempo da criançada, e que era, apesar de extravagante, um bom moço, não de todo desarranjado, graças à benevolência do padrinho barbeiro.

Verdade é que se não sabiam bem as contas que seu pai havia feito a esse respeito; mas como era coisa que constava de verta testamentária, D. Maria nada via de mais fácil do que propor uma demanda, cujo resultado não seria duvidoso.

Havia porém no meio de tudo uma circunstância que lhe desconsertava os planos. O Leonardo era soldado. Ora, soldado, naquele tempo, era coisa de meter medo.

Quando D. Maria chegava a este ponto de suas meditações, abandonava-as, e continuava o seu rosário.

A comadre fazia quase exatamente os mesmos cálculos por sua parte, e também só esta única dificuldade se antolhava à realização de seus planos.

Enquanto estas duas pensavam, os outros dois obravam.

Luisinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; e quem quiser ver coisa de andar depressa é ver namoro de viúva.

Na primeira ocasião Leonardo quis recorrer a uma nova declaração; Luisinha porém fez o processo sumário, aceitando a declaração de há tantos anos.

Sem que os vissem, viam-se os dois muitas vezes, e dispunham seus negócios.

Infelizmente ocorria-lhes a mesma dificuldade: um sargento de linha não podia casar. Havia talvez um meio muito simples de tudo remediar. Antes de tudo, porém, os dois amavam-se sinceramente; e a idéia de uma união ilegítima lhes repugnava.

O amor os inspirava bem.

Esse meio de que falamos, essa caricatura da família, então muito em moda, é seguramente uma das causas que produziu o triste estado moral da nossa sociedade.

Só essa dificuldade demorava os dois. Entretanto o Leonardo achou um dia o salvatério, e veio comunicar a Luisinha o meio que tudo remediava: podia ficar ele sendo soldado e casar, dando baixa na tropa de linha, e passando-se no mesmo posto para as milícias.

A dificuldade, porém, estava ainda em arranjar-se essa baixa e essa passagem: Luisinha encarregou-se de vencer esse embaraço.

Um dia em que estava sua tia a rezar no seu rosário, justamente num daqueles intervalos de padre-nosso a ave-maria de que acima falamos, Luisinha chegou a ela, e comunicou-lhe com confiança tudo que havia, fazendo preceder sua narração da seguinte declaração, que cortava a questão pela raiz:

— Para lhe obedecer e fazer-lhe o gosto casei-me uma vez, e não fui feliz; quero ver agora se acerto melhor, fazendo por mim mesma nova escolha.

Em breve, porém, conheceu que fora inútil sua precaução, porque D. Maria confessou que de há muito ruminava aquele mesmo plano.

Combinaram-se pois as duas.

A bondade do major inspirava-lhes muita confiança, e lembraram-se por isso de recorrer a ele de novo.

Foram ter com Maria-Regalada, que mesmo na véspera lhes tinha mandado dar parte que se mudara da Prainha, e oferecia-lhes sua nova morada.

A comadre, de tudo inteirada, fez parte da comissão.

Quando entraram em casa de Maria-Regalada, a primeira pessoa que lhes apareceu foi o major Vidigal, e, o que é mais, o major Vidigal, em hábitos menores, de rodaque e tamancos.

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