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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

O Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia é merecedor de elogios e de gratidão pela boa obra que fez, salvando e conservando o crânio de Frei Sampaio e dando dele um estudo minucioso e profundo que aproveita à ciência e também um pouco mitiga a mágoa que nos deixou o extravio dos outros ossos.

Além da cela de Frei Sampaio, que o respeito devido à sua ilustre memória fez conservar com um cuidado tão louvável, ainda os religiosos apontam e mostram com uma bem fundada e justa ufania aos visitantes do seu convento da cidade do Rio de Janeiro, outras celas não menos recomendáveis por nobres recordações da mesma natureza.

Entre essas, distinguem-se as que pertenceram a Mont’Alverne e São Carlos.

Direi alguma coisa a respeito da cela que foi habitada pelo último, o frade notabilíssimo que primou como pregador e como poeta.

A cela que pertenceu a Frei São Carlos está situada na extrema esquerda da face principal do convento e dela são as últimas duas janelas de peitoril que ali se vêem. Por cima, no segundo andar, tem ela o painel e altar de N. S. da Assunção, que havemos de contemplar mais tarde.

É notável a feliz coincidência desse altar e desse painel da Assunção, levantados exatamente sobre a cela em que habitou aquele que foi o grande e inspirado cantor da Assunção, e onde ele escreveu esse estimado poema, que perpetuará seu nome.

Entretanto, esta cela também correu o risco de ser destruída, não pela mão dos homens, mas pela flama do raio.

Em uma tarde escura e tempestuosa, achava-se Frei São Carlos na sua cela, e conversando com ele, os padres-mestres Frei Henrique de Santana, Frei Joaquim de São Daniel e alguns outros religiosos.

A tormenta ia cada vez mais redobrando de intensidade, e ao ribombar de terrível trovão, levantaram-se os frades assustados.

Frei Henrique tremia ainda mais que todos os outros.

– Que é isso, padre-mestre? – perguntou-lhe São Carlos.

– Tenho medo – respondeu Frei Henrique. – Tenho medo, elembra-me que não estamos bem aqui em uma extremidade do convento. Acho prudente que nos retiremos.

São Carlos riu-se do conselho de Frei Henrique. Este, porém, despediu-se. Saiu, e foi logo seguido por todos os outros frades.

Frei Joaquim de São Daniel, que se deixara ficar por último, despediu-se também, e São Carlos, ou para continuar a conversação em que estavam, ou porque não lhe agradasse o ficar só, acompanhou a S.

Daniel.

E tinham apenas dado alguns passos fora da cela, quando um novo e mais terrível trovão rebentou, e a cela pareceu abismada em dilúvio de fogo.

Era o fogo do raio.

São Carlos, São Daniel, Frei Henrique e outros religiosos acabavam de escapar de serem fulminados.

O raio estragou o altar da Assunção, que veremos no segundo andar do convento. Fez rachar-se de alto a baixo uma das paredes da cela e cair uma grande pedra no mesmo lugar onde poucos momentos antes se achava sentado o Padre-Mestre São Carlos.

O suavíssimo cantor da Assunção tratou logo depois de promover os reparos do altar estragado, conseguiu em breve restaurá-lo e, em observância de um voto que por essa ocasião fez, daí em diante e até morrer, pregou em todos os anos o sermão da festa de N. S. da Assunção no convento, solenidade que se celebrava no mesmo altar que também fora tocado pelo raio, atribuindo sempre aquele padre-mestre a um milagre da Santíssima Virgem o ter escapado a tão tremendo perigo.

E justo foi que a Rainha das Virgens, a Mãe Imaculada cobrisse com o escudo da sua proteção o poeta por ela mesma inspirado, o poeta que a cantava com tanto brilhantismo e com tanta doçura, e que a ela dizia:

Eu só procuro com meus versas rudes Teus triunfos cantar, tuas virtudes.

V

Finalmente, depois de quatro longos passeios, chegamos ao segundo andar do convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro.

Talvez cansados e aborrecidos de acompanhar-me, penseis que cinco passeios prolongados e consecutivos pelo interior de um convento devam parecer demais. Sabei, pois, que eu nutro sérios receios de que não paremos ainda no quinto, e que tenhamos de completar a meia dúzia.

E mesmo assim, não pouco me ficará por dizer, visto que sendo tão amplos os hábitos dos frades franciscanos, não podem deixar de dar muito pano para mangas. E nem é de admirar que seis passeios não bastem para se fazer o estudo completo de um espaçoso e notável convento, quando tantas e tão dilatadas viagens se têm feito dentro de limites muito mais apertados.

Só Xavier de Maistre, para não lembrar alguns outros, escreveu dois livros dando conta de uma viagem ao redor de seu quarto e de uma expedição noturna ainda ao redor do seu quarto. Façam idéia de quantos livros escreveria Xavier de Maistre, se viajasse por um convento de frades.

Direis a isso que também não fatigaria nem mesmo ao maior preguiçoso o ser companheiro de viagem de um escritor como o foi o espirituoso irmão do célebre Conde José Maistre.

(continua...)

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