Por José de Alencar (1872)
Quando por fatalidade o ameaçasse em seu covil tal força armada que lhe tirasse os meios de salvação, no último transe, perdida toda a esperança, bastar-lhe-ia deitado como estava meter o pé com força no seixo, para que este rolasse e partindo-se o tronco, o estilhaço tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.
Se antes, enquanto dormia tranqüilo, a pedra se deslocasse com a dilatação do tronco, ou se aluísse a base sobre que assentava, nenhum cuidado lhe dava isso. Para ele, Jão, a vida fora sempre um contínuo perigo; sua índole precisava desse estímulo.
Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre à falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros mais conseguira livrarse do bando de queixadas; e como um possesso deitara a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das árvores próximas.
Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência, até que ele parou no sopé do rochedo.
Então desprendendo-se de seus braços e travando-lhe das mãos com veemência, exclamou:
- Querem-no prender, Jão! Fuja! Eles não tardam!
O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo menção de afastar-se, todavia parou a alguma distância, como se mão invisível lhe sofreasse a vontade. Assim permaneceu com o corpo lançado, a fronte abatida, e a mão fechada a calcar o peito revesso.
- Você não tem medo? replicou a menina vendo-o parado.
- Medo!... murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!
Com efeito bambeavam os músculos dessa organização vigorosa e atlética; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por grande pavor, que derramava em suas feições e no seu gesto uma espécie de alucinação. Parecia que o assombrava temerosa visão ou que o esvairava algum horroroso pensamento.
- Jão, eu lhe peço, Jão, fuja!
- Sim... sim... balbuciou o capanga. Eu queria fugir... para bem longe... Mas não posso! Não!
- Meu Deus, que tem você?
Esta exclamação, a arrancara dos lábios da menina o espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente e cravara nela um olhar ardente e sombrio, como a cratera de um vulcão.
Mal pensava Berta que naquele momento a ameaçava outra fera mais horrenda, do que não era a terrível cascavel fascinada por ela, e os sanhudos queixadas a cujas presas escapara um momento antes.
Seria então meio-dia.
A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e contudo sentia Jão Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.
Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.
Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espáduas como um homem que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.
Depois fechou os olhos e avançou.
XII
O assalto
Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe fossava o calcanhar.
Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rápida corrida, focinhava os pés do capanga, estirando a tromba para o lado do campo, e soltando um grunhido particular, se não era antes um burburinho.
Não hesitou Jão, à vista destes sinais. Tomando Berta nos braços outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos, agrupados na falda do rochedo, como os degraus de uma escada em espira; e sumiu-se com a menina no bojo da caverna.
Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das árvores.
Houve um instante de silêncio.
As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imóveis, talvez à espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta; nem mesmo se lobrigava qualquer vulto por entre a espessura.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.