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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Eu! Vocês querem divertir-se. 

- Foi o recado que recebemos. 

- Hum!... Não passa de invenções da senhora minha filha! Não resta dúvida! 

O banqueiro levou o dedo à boca: 

- Esperem que vou tenteá-la. Nisto apareceu Guida: 

- Sim senhor, papai, muito bonito! convida a cidade do Rio de Janeiro em peso para jantar, sem prevenir a mamãe, nem dizer a pessoa alguma! Pois isto se faz? 

- Henh! estão vendo, vocês! disse o Soares disparando a rir. 

- Ora não disfarce, papai. Todos estes senhores receberam seu convite, e com a recomendação de guardar segredo! 

- É verdade? 

- Então!... Mamãe e eu íamos sair, quando começam a chegar convidados. Os senhores hão de ter paciência e desculpar. Um banquete não é um discurso, que se improvisa. 

- É pena que não se possa mudar de sexo, Guida. Tu serias o primeiro banqueiro do Rio de Janeiro.

- Esse lugar já está tomado, papai. 

- O jantar!... gritou o Daniel na porta. 

- Brejeira! murmurou Soares fazendo cócegas nas faces de Guida.  

Sentaram-se os convidados à mesa, onde o cozinheiro teve o talento de concentrar os espíritos na mais séria das preocupações da vida àquela hora crítica do jantar. Assim já poucos se lembravam que ali tinham ido para outra coisa que não fosse apreciar a boa mesa do Soares. 

- Aposto que está muito curioso de saber o segredo? disse Guida a Ricardo que lhe ficava ao lado.

- Confesso que tenho alguma curiosidade; mas por um motivo que não supõe.

- E se eu adivinhar? 

- Tem muitas prendas para que lhe desse mais essa a natureza. 

- O senhor suspeita que o segredo é uma brincadeira, um logro. 

- Pior do que isso. Antes de ter o prazer de conhecê-la, ouvi falar da anedota de um médico, que se mandou chamar de madrugada a toda a pressa para ver uma cachorrinha. 

- Ah! contaram-lhe isso? tornou Guida a rir; mas sem dúvida não disseram que foi uma aposta! 

- Em todo o caso... 

- Papai duvidou que eu fosse capaz de fazer o doutor ir a um baile ou coisa que se lhe parecesse; eu apostei. Arranjei uma partida em nossa casa, mas com o maior segredo. 

- Como o jantar de hoje. 

- Tal e qual; às onze horas, quando as salas estavam cheias escrevi ao doutor, em nome de meu pai, a carta chamandoo para ver minha querida “Sofia”, que estava gravemente enferma. Ele veio; levou a coisa de brincadeira; e ao retirarse teve de sair pelas salas, pois não havia outro caminho. Aí as minhas amigas, que já estavam prevenidas, rodearamno com muitas festas, e tanto fizeram que o velho dançou uma quadrilha para recobrar a liberdade. Eu ganhei a minha aposta e meu pai deu-me “Edgard”. Bem vê que lucrei com a travessura. 

- Já não me admira que faça tantas. 

- Fiz; tinha dezesseis anos apenas; é verdade que, se não as faço ainda hoje, não é por falta de vontade, mas por acanhamento. Já tenho dezenove e contudo ainda me sinto menina. 

Nesse momento ergueu-se comovido o barão de Saí. 

- Meus senhores, vou fazer um brinde. 

Compreenderam todos como por uma repercussão moral que era chegado o momento da explicação; e abriu-se profundo silêncio. 

Guida e Clarinha, a filha do barão, trocaram um olhar de inteligência que não passou desapercebido a Ricardo. O barão propôs a saúde nestes termos: 

- Ao meu velho amigo Soares, ao homem honrado que se fez por seu trabalho, e a quem o povo despachou comendador por aclamação, antes que sua Majestade houvesse por bem nomeá-lo. Aqui está o decreto. 

O velo com gesto solene abriu o pergaminho, onde se via uma assinatura de quatro contos de réis; as outras eram bagatela. 

(continua...)

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