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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Eram mais de oito horas. Para a época e o lugar tardara o almôço; mas fôra preciso dar tempo à montearia, mais agradável com a fresca da manhã. Além de que os tarros de leite fresco, mugido do peito das vacas alí mesmo no pasto, haviam confortado os estômagos. Todavia o apetite foi o que se devia esperar depois de três horas de equitação e dos exercícios ativíssimos da vaquejada. 

O sol já estava alto; mas seus fogos eram moderados pela aragem fagueira que durante os meses do inverno reina no sertão. 

Aquela festa cortesã, arreada com todos os primores do luxo, tinha alí no seio do deserto um encanto especial e novo que perderia, se, em vez da floresta, a cingissem as paredes do mais suntuoso palácio. As telas de veludo e sêda, desfraldadas por entre o verde estôfo da folhagem; a competência do cristal, do ouro e da prata com as flores e os frutos dos mais finos matizes e de mil formas caprichosas; a antítese da arte no seu esplendor com a natureza em sua virgindade primitiva: era de enlevar.  

O banquete foi demorado. A princípio correu quase silencioso; os caçadores tratavam de aplacar os rebates do apetite, que a-pesar-do anexim, não cedia ao do pescado, na fome como na sede. 

Durante essa primeira parte do almôço, alguns pagens tocavam charamelas, gaitas e outros instrumentos que formavam então as bandas de música marcial. 

Mais tarde levantou-se a conversação na qual tomou parte ativa Marcos fragoso. 

Não perdeu o moço capitão vez de insinuar a D. Flor alusões e finezas encobertas que todos entendiam, menos a donzela, cuja índole não se prestava a tais ambiguidades, e o capitão-mór, para o qual a mitologia em que os namorados de então se forneciam de galanteios, era um latim rebarbativo. 

Já estava a terminar o almôço, quando Arnaldo que tornava da corrida, ouviu de longe os brindes que se trocavam entre os convidados. Aproximou-se cautelosamente por dentro do mato. O seu nobre semblante, que tinha habitualmente a expressão viva e atenta, que é própria do sertanejo, nesse momento apresentava uma alerta ainda mais pronta e vigilante. 

Por entre as árvores descobriu êle as cavalgaduras, que pastavam à soga em uma clareira coberta de relva e sombreada pela mata. Perto do baio de D. Flor, estava um rapaz de vinte anos, que pelo tipo das feições e pela côr baça do rosto combinada com os cabelos negros e lustrosos, mostrava pertencer à raça boêmia, da qual nesse tempo e até época bem recente, vagavam pelo sertão bandos que viviam de enliços e rapinas. 

O escritor desta páginas ainda tem viva a lembrança dessas partidas de ciganos, que muitas se arrancharam no sítio onde nasceu, e cuja derrota era assinalada pelo desaparecimento das aves e criação e animais domésticos, especialmente cavalos, quando não havia a lamentar o furto de crianças, de que faziam particular indústria. 

O rapaz que Arnaldo vira, era um cigano desgarrado, como havia alguns por exceção; e estava a fazer ao baio uns afagos e carícias, tão cacheiros que para exprimí-los, adotou a língua o seu próprio nome. O povo rude chamava a isso, enfeitiçar o cavalo; e acreditava que o animal assim enliçado fugia do dono para seguir o ladino. 

O sertanejo parou um instante a observar o cigano, e seguiu adiante. 

O capitão-mór pela posição em que estava foi quem primeiro o avistou, e de longe, ainda gritou: 

— Sempre escapou-te, o Dourado, rapaz? Aquilo é um boi danado, e manhoso como nunca se viu. Mas não te desconsoles. Outra vez com certeza lhe deitas a unha. Êle ficou te conhecendo desta primeira corrida que lhe deste, e já sabe o filho e quem és. Teu pai, o Louredo, nosso vaqueiro, e o primeiro campeador de todo êste Quixeramobim, o que quer dizer de todos os sertões do mundo, levou uma semana atrás dêsse boi desaforado. 

Ao terminar desta fala, já Arnaldo achava-se perto da mesa. Marcos fragoso, a-pesar-de haver-se convencido da necessidade de suportar com uma altiva impassibilidade a presença do vaqueiro que o havia insultado, custou a conter-se, e como o banquete havia terminado apartou-se com o primo Ourém para não precipitar-se. 

— Portanto, concluiu o capitão-mór, erguendo-se da mesa e caminhando para o sertanejo, não tens de que te envergonhar, rapaz! Aprendeste as manhas do boi; qualquer dia dêstes consegues pegá-lo. 

— Eu já o peguei, sr. capitão-mór, disse Arnaldo sem alterar-se. 

— Que dizes? Pegaste o Dourado, rapaz? perguntou o fazendeiro na maior surpresa. 

— Á unha, sr. capitão-mór. 

— Bravo, Arnaldo! Onde está o maganão? Trouxeste-o à ponta de laço, ou deixaste-o amarrado ao pau, que não é boi para matar-se aquele? 

— Tive pena dele, e solteio-o, respondeu Arnaldo com emoção. 

— É boa! exclamou João Correia. Pena de um demônio em figura de boi! 

— Que ternuras de vaqueiro! acrescentou Daniel Ferro. 

(continua...)

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