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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Devo falar-lhe com franqueza, sr. Cândido: entendo que a sua posição na sociedade não é a melhor possível; que seus merecimentos lhe marcavam um lugar mais alto nela. Compreendo mesmo que um moço pobre, que vê o mundo cheio de gozos e delicias que não lhe é dado gozar, tem até certo ponto razão para entristecerse durante algumas horas; olhe porém à roda de si, sr. Cândido; que número imenso de homens não está aí diante de seus olhos com mil vezes mais razão para lastimarse?... quantos tiveram como o senhor a felicidade de receber uma educação proveitosa e acurada?... já não é alguma coisa a superioridade da luz do seu espírito? O moço sacudiu a cabeça, e disse:

– Já confessei que sou ambicioso; e demais, a educação agiganta as privações. O mendigo contenta-se com um pedaço de pão velho para comer, e com um capote feito em pedaços, e com a porta de uma igreja para dormir; mas o mendigo não sonha com a felicidade como sonha o moço que estudou, e que tem imaginação e ardor. Não é ouro o que eu desejo, senhor... a riqueza que eu peço a Deus não é de metal, nem de bilhetes do banco; a minha riqueza é a do coração. Se muitas vezes falo com amargor do poder do dinheiro, é porque me revolto quando vejo acima do talento, da honra e do mérito, o ouro! mas não é o ouro que eu ambiciono.

– Não o compreendo, disse Anacleto.

– O que me acanha, o que me obumbra, o que me faz nascer desejos de fugir para essas florestas virgens de minha pátria, é a pobreza de afeições em que vivo. Ah! Sr. Anacleto!... eu sou o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores!.

– Que quer dizer?

– Pois então? como é que um homem como eu não há de sentir apertar-se-lhe terrivelmente o coração, quando, comparando-se com os outros homens, se acha o somenos de todos eles?... pois não há de doer-me o aspecto da felicidade de uma família, comparado com o meu isolamento?... Em sua casa, em toda a parte onde há homens e mulheres, eu vejo um moço brilhante de mocidade, de talento, de ardor e de ventura; pensa que é isso o que eu invejo?... não; também sou moço, tenho também alguma inteligência, e também fogo no coração; o que eu invejo é o olhar de gênio benfeitor, é o olhar de bênção, senhor, com que um velho pai se revive naquele moço; é o carinho, a doçura angélica com que uma terna mãe o festeja; é a doce amizade com que uma boa irmã o abraça; e então, senhor, quando eu penso que nunca cheguei a gozar, nem gozarei um olhar assim de um bom pai, nem um carinho de mãe, nem uma meiguice de irmã, não é verdade que tenho bastante razão para considerar-me desgraçado?... não é verdade o que eu digo? não sou eu o último, o mais miserável mendigo dos melhores amores?...

– E o remédio agora, meu pobre Cândido?! disse Anacleto meio comovido.

– Remédio para curar radicalmente a minha dor não há nenhum; para minorá-la é a solidão, é o retiro. Aqui, senhor, no fundo deste quarto eu não vejo essas cenas de felicidade doméstica, não tenho ao vivo diante dos olhos o quadro daquilo que em vão desejo. Ficarei pois aqui, senhor, enquanto esta boa velha carecer de meu braço; desde o momento porém em que ela fechar os olhos, o meu destino é outro.

O moço respirou, e prosseguiu:

– Não conheci meus pais; minha mãe é a natureza; pois bem, irei viver onde a natureza é mais bela, irei adorá-la nos seus vivos encantos. Aborreço a sociedade dos homens. O campo... o vale... a montanha... os precipícios... a floresta virgem... o rio caudaloso é um espetáculo bem belo!... ah! sim! o campo... o vale... os precipícios... a floresta virgem... e o rio caudaloso são meus irmãos; têm como eu por mãe somente a natureza.

Cândido tinha-se exaltado tanto, que Anacleto deixou-o sossegar para continuar a conversação que havia encetado.

– Tem ainda muito fogo, sr. Cândido, disse o velho, é muito moço, e sua imaginação avulta os seus pesares. Respeito-os porque são de nobre origem; mas tenho o direito dos anos para dizer-lhe que pecam por excessivos.

– Embora...

– Procurar ser feliz é ao mesmo tempo um dever do homem.

– Quando há esperança.

– E quem não a tem?... quando foi que ela nos abandonou?... eis-me aqui velho e cansado... eis-me aqui à borda do túmulo com os olhos fitos em Deus, e uma esperança no coração.

O mancebo olhou para o velho.

– Sim! não se admire. Uma grande esperança, e depois desta virão ainda outras. Uma grande esperança, a de ver feliz minha filha.

– Sua filha! repetiu Cândido.

– E então não é uma nobre esperança?

– Bem doce!

– E quem lhe diz que não terá ainda uma igual?...

– Eu não; eu hei de completar o meu destino. Fui arrojado do mundo com desprezo... quando abri os olhos, abri-os entre os estranhos... não conheço os meus; eu sou – só; – compreenda bem esta palavra, sr. Anacleto; é uma palavra, um nome de duas letras que revela toda a minha história, o meu passado, o meu presente, e o meu futuro – só! – completarei a minha sina. Farei a viagem do mundo sem um companheiro do meu sangue – só!... sempre só!...

E como se essa palavra tivesse realmente a significação que lhe ele dava, como se ela fosse a sua divisa, Cândido ainda uma vez repetiu com voz sonora e profundamente melancólica:

– Só! – sempre só!

(continua...)

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