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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Há de aí vir um menino vivo, esperto, loiro, que mostrará ter dezesseis anos... vestido de branco (pelo menos é de esperar que assim venha), e com uma fita preta atada em laço ao pescoço: mostre-lhe o senhor este anel, que lhe vou dar, e diga-lhe que o acompanhe.

— E depois?...

— E depois, Sr. Miguel, não há mais nada a fazer: o senhor entra e fica na sua casa; e o menino terá de conversar comigo.

— Ah!... entendo: quer que traga o menino cá?...

— É exatamente isso mesmo; o Sr. Miguel tem uma penetração admirável!... eis aqui o anel.

Miguel recebeu o anel, escondeu-o no bolso da calça e saiu.

— Agora, mãe Sara, disse o moço, consinta que eu vá descansar um pouco.

— Vá, vá, moço, e não seja desinsofrido.

O moço loiro levantou-se e foi direto para seu quarto, já sem encostar-se às paredes. — Ora, pois, disse ele entrando, vê-se bem que esta cabeça vai tomando juízo: já não me anda tanto à roda...

E, deitando-se em uma pobre cama, adormeceu de novo.

Mas quem é esse mancebo?... donde veio?... o que pretende?... por que se esconde?... pouco nos é dado dizer a semelhante respeito; nada adiantaremos ao que já qualquer que ler este livro terá compreendido.

É absolutamente o mesmo moço loiro, que se apresentou no sarau de Tomásia diante de Honorina e Raquel; mas seu rosto, que não afeta mais a doce melancolia, que, sem dúvida, fingiu à vista das duas moças, está agora extremamente pálido; seus olhos se acham encovados; ainda assim, porém, ardentes e vivos; e, apesar de fraco e abatido, ele sempre alegre e fagueiro deixa brincar nos lábios descorados um sorriso engraçado, que sabe tornar melancólico, irônico, picante ou agradável, segundo as circunstâncias do momento.

Mas como se chama o moço loiro?... ficamos como dantes; é essa uma questão que ele nunca trata de decidir; uma vez, em que Sara lhe perguntou qual era o seu nome:

— Há suas dúvidas a esse respeito, mãe Sara, disse ele com voz meiga: eu mesmo ainda não sei como me devo chamar; no entanto, pode ir chamando-me, como lhe parecer, porque eu acudo por todos os nomes da folhinha.

Todavia, apesar do mistério de que se rodeia, há uma coisa que à primeira vista de olhos se aprecia devidamente em suas ações e mesmo em seu semblante: é o caráter dele. Na parte superior da sua fronte desenha-se descendo, e estreitando-se até o meio dela, com sua forma cônica, e apenas sensível, o órgão da sagacidade e vivacidade de espírito. Basta, além disso, observar esse moço durante breves momentos para conhecê-lo todo; com efeito, tudo nele é fogo e ardideza; ágil, rápido e precipitado, quase em um só tempo pensa e executa; jovem, e parecendo cheio de esperanças, ele se ri para o mundo com uma audaz confiança no futuro; forte, decidido, bravo e imprudente, não hesitaria um instante ao ver-se à borda de profundo abismo, antes atirarse-ia no seu fundo para salvar uma vítima, qualquer que fosse, que lá se debatesse; talentoso, ardente e romanesco despreza a vida de vegetação e de monotonia, e, todo entregue aos sonhos e desvarios de sua imaginação, cria em derredor de si, e para viver a seu gosto, um mundo de ilusão, de mistérios e de belas fantasias; finalmente, compassivo e alegre, independente e brando é sempre o amigo dos desgraçados, tem sempre piedade dos outros e nunca de si; está constantemente alegre, não odeia a ninguém, estima muita gente e morre de amores por Honorina.

O gênero de amor que entretém deve, pois, sua origem e alimentação a uma de duas causas: ou a seu caráter, ou a uma razão ainda desconhecida.

É possível que, extravagante e ardente como é, tendo ouvido o primeiro diálogo de Honorina e Raquel, e então devidamente apreciado a imaginação daquela moça, que devia ser com tanta facilidade inflamável, lhe viesse ao pensamento desafiar-lhe primeiro a curiosidade, e depois ganhar-lhe o amor com suas aparições inopinadas e preparados mistérios: se ele pensou assim, tirou completo resultado de seu plano.

Mas é possível também que, amando desde muito a bela moça e temendo que seu rosto, visto à luz do dia possa recordar um crime, ou uma infâmia que faça recuar horrorizado de seu aspecto aquele anjo de pureza, se furte aos olhos de todos, e à mercê da noite, ou quando, aparecendo só a ela, ninguém haja para apontá-lo com o dedo, e dizer: eis um monstro! trate de prender em duros laços o inocente coração da menina, a fim de que, se uma hora soar em que seja conhecido, seja também já impossível escapar-lhe a presa.

Pode, porém, existir tanta malvadeza em um homem tão nobre, que se expõe à morte para salvar uma mulher?... em um homem que, ainda estando só, está sempre alegre?... a alegria na solidão não será um privilégio exclusivo da virtude?...

(continua...)

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