Por Lima Barreto (1909)
Queria-me um homem do mundo, sabendo jogar, vestir-se, beber, falar às mulheres; mas as sombras e as nuvens começavam a invadir-me a alma, apesar daquela vida brilhante. Eu sentia bem o falso da minha posição, a minha exceção naquele mundo; sentia também que não me parecia com nenhum outro, que não era capaz de me soldar a nenhum e que, desajeitado para me adaptar, era incapaz de tomar posição, importância e nome. Sofria com essa “consideração” especial que tanto irritava o poeta cubano Plácido. Continuava, porém, a ir com ele aos teatros, às pândegas. Saiamos com raparigas, jantávamos nos arrabaldes pitorescos. Eu ia contente mas o meu contentamento durava pouco. Não sei o que sentia de ignóbil em mim mesmo e naquilo tudo, que no fim estava sombrio, calado e cheio de remorsos. Desesperava-me o mau emprego dos meus dias, a minha passividade, o abandono dos grandes ideais que alimentara. Não; eu não tinha sabido arrancar da minha natureza o grande homem que desejara ser; abatera-me diante da sociedade; não soubera revelar-me com força, com vontade e grandeza... Sentia bem a desproporção entre o meu destino e os meus primeiros desejos; mas ia.
Nos dias em que tencionava levar-me a passeio, perguntava-me Loberant:
— Isaías estás com dinheiro?
— Algum.
E sem que ninguém visse, passava-me uma nota de cinqüenta ou cem mil-réis. Nunca vi dar dinheiro como aquele homem. Era a mim, e a muitos. É verdade que o jornal dava mais de cem contos líquidos por ano e era só dele.
Neste dia, como de hábito, perguntou-me se tinha dinheiro e deu-me depois duzentos mil-réis.
— Nós vamos à Tijuca, disse ele. Jantaremos lá com a Leda, conheces? — Não.
— Está há pouco tempo aqui... É um pancadão!
Fomos buscá-la a casa. Morava numa rua transversal do Catete, e chegamos á um pouco depois das três horas, quando a italiana ainda se vestia. Eu ainda pude ver bem as suas largas espáduas de estátua, muito alvas e rosadas e o belo pescoço, torneado, modelado, encaixando no corpo em curva suave e vaporosa que vinha morrer nos ombros sem transição alguma. A italiana tinha uma forte marca de antigo, já no rigor da fisionomia, já no matiz da pele; e se não tinha também a vulgaridade exaustiva das estátuas clássicas, devia-o aos seus olhos negros, onde havia muito da nossa inquietude moderna, um grande langor profissional.
Loberant disse-lhe a nossa tenção de ir à Tijuca:
— Oh! não, fez a mulher. Já fui. Não gosto... Outro lugar, não achas? — Então onde queres ir? Ao Leme? Ao Silvestre? perguntou Loberant. — Pelo mar, no fundo... Lá onde estão aquelas montanhas, aquelas ilhas... Quando cheguei tive vontade de ir logo, logo lá.
Gostei do capricho da mulher, mas não me animara a aprová-lo. Loberant pareceu gostar também e perguntou:
— Onde há de ser? A Paquetá?
— Pode ser... fiz eu.
— Não, não é bom. Há muita gente conhecida... Vamos à ilha do Governador.
Leda estava já completamente vestida e não esqueceu os pandeloques que chocalhavam na cintura. A barca viajava semivazia e os viajantes habituais viram com espanto a nossa entrada. A elegância extra-rural de Leda fez escândalo. Ela parecia não notar, mexia-se por toda a barca naturalmente, dando pequenos gritos de admiração à paisagem que se desenrolava. Não cessava de olhar, de aspirar com força toda a exalação de poesia e de grandeza da baia incomparável. O sol, para o poente, ainda domava tudo e as águas estavam azuis. Um passageiro informou-nos da demora da barca nos pontos. Iria primeiro ao Zumbi, depois a outras localidades da ilha e voltaria ao primeiro ponto no espaço de uma hora. Saltamos. O arraial tinha um ar risonho e estendia-se pela praia alva, cuja curva marcava obedientemente. As canoas dormiam nas praias e as redes secavam ao sol, estendidas sobre varas. A italiana propôs um passeio. Havia tempo, podíamos fazê-lo. Começamos a andar. Das casas espiavam-nos. Já ficavam para trás, tomamos um atalho, depois um outro e quando voltamos ao caminho largo, tínhamos tomado outro. Não percebemos logo, só viemos a dar com o rumo depois de ter andado um quarto de hora sem encontrar a praia. Leda percebeu particularmente a situação. Quando teve notícia, soltou uma gargalhada:
— Que belo!
Andávamos por um caminho deserto no momento, mas que parecia trilhado. Dois regos paralelos de carros marcavam os seus limites com a floresta. A uma hora do Rio de Janeiro, estávamos no deserto. Andamos e quase não falávamos. A italiana era a única que parecia contente.
Às vezes era um areal; em outras, era um capoeirão quase floresta. E tudo triste, desolado e abatido. Leda observou:
— Quando não há muita árvore e muita água a terra de vocês é feia! É preciso que haja muita, muita, para que ela seja bonita!
Houve um momento que nos supusemos sem saída. As árvores cruzavam-se sobre a estrada; os cipós atravessavam de um lado e de outro, os arranha-gatos perseguiam as nossas vestes, agarravam-se a elas tenazmente como se nos quisessem despir. Um sabiá pôs-se a cantar e toda a dor daquela terra calcinada, exausta e pobre, vibrou nos ares. Chegamos a uma campina. Havia bandos de coleiros trinando nas espigas de capim e os anus enodoavam os leques das ubás.
Depois da primeira marcha, pusemo-nos a conversar. O doutor estava apreensivo; eu resignado e Leda contente, recordando talvez a sua infância de campônia.
— Onde iremos dar? indagava o diretor.
— Ao mar naturalmente. Isto não é uma ilha? É; portanto não há meio de se ir ter a São Paulo.
Sentamo-nos cansados. A débil organização de Loberant resistia fracamente à fadiga.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.