Por Aluísio Azevedo (1895)
Leonília deixou-o sair, sem lhe voltar o rosto, nem lhe dar uma palavra. Só alguns minutos depois, ergueu--se, passou as mãos pelos cabelos das fontes, suspirou prolongadamente, mirou-se no espelho que lhe ficava mais perto e apoiou-se a um móvel, com o olhar cravado em um ponto da sala.
- Miserável! balbuciou ela depois de longa concentração. - Miserável! E ele que nunca me falou nisto... Iludir-me por tanto tempo!... Tinha um casamento ajustado, tinha um namoro, e eu supondo que era amada!... Ah! quando me lembro que ainda ontem lhe disse que seria capaz de tudo por causa dele, que tudo suportaria para não me privar dos seus carinhos!... Oh! mas hei de vingar-me, hei de fazê-lo sofrer o quanto for possível, hei de persegui-lo enquanto durar o meu amor! Ou este casamento será desmanchado ou Teobaldo não terá mais um momento de repouso em sua vida!
E desde então principiou Leonília a fazer planos de vingança, a imaginar maldades e represálias contra o amante, disposta a não lhe deixar transparecer o menor indício das suas intenções; mas, na primeira ocasião em que Teobaldo esteve ao seu lado, ela não se pode conter e, entre soluços, deixou rolar contra ele a formidável tempestade de ciúmes que a tanto custo reprimia.
- É exato, respondeu o moço sem se alterar. Já que sabes de tudo confesso-te que vou casar.
- Hipócrita!
- Hipócrita, por que? Então não posso dispor de mim?
- Não, decerto! a não ser que tenciones me dar o mesmo destino que teve a pobre Ernestina!
Teobaldo fez um gesto de contrariedade e Leonília acrescentou:
- Não, de certo, porque, quando uma mulher ama como eu te amo, não pode consentir que o seu amado se case com outra!
- Mas, filha, é preciso ser razoável!... Querias então que eu fosse eternamente o teu amant de coeur?... querias que eu não tivesse outras aspirações, outros ideais, senão representar a indigna e falsa posição que represento aqui nesta casa, que não é paga só por mim?...
Oh! Já tive ocasião de provar-te que não ligo importância a tudo isto !.
- Sim, mas não compreendes que tenho aspirações e prezo o meu futuro? não vês que seria loucura de tua parte contar comigo para toda a vida?... Oh! às vezes nem me pareces uma mulher de espírito!
- E amas tua noiva?
- Se não a amasse, não desejaria casar com ela.
- Dize antes que lhe cobiças o dote; serias, ao menos, mais delicado para comigo.
- Bem sabes que eu não minto..
- Quando não te faz conta!...
- Desafio-te a citares uma mentira minha!
- Ora! não tens feito outra coisa até agora, escondendo de mim os teus projetos de casamento.
- Não! Isso seria falta de franqueza, mas nunca mentira.
- E mentir fazer acreditar em um amor que não existe.
- Eu nunca fiz semelhante coisa! Não fui eu quem te iludiu, foste tu própria!
- Confessas então que nunca me amaste, não é assim?
- A que vem esta pergunta?... Amar! amar! Oh! como tal palavrão me enjoa e apoquenta!
- É porque és um cínico!
- Não, é porque "amor" nada exprime, é um palavrão sem sentido; fala-me em simpatia, em gostar de ver alguém e senti-lo ao seu lado; fala-me na estima e no apreço em que temos os bons e os generosos, e eu te compreenderei e eu te direi que te aprecio e te quero!
- Vais me oferecer a tua amizade. Aposto.
- Não te posso oferecer uma coisa que dispões há muito tempo... O que eu desejo é apelar justamente para essa amizade e pedir-te em nome dela que não sejas um obstáculo ao meu futuro e A minha tranqüilidade.
- Não te compreendo.
- Meu futuro baseia-se todo neste casamento.
- E vens pedir que eu te auxilie?...
- Sim.
- Pois desiste de tal idéia!
- Não queres me proteger?
- Quero guerrear-te.
- Ah!...
- Hei de fazer o possível para que o teu casamento nunca se realize!
- É assim que és minha amiga?...
- É assim que sou rival de tua noiva! Hei de fazer o que puder contra ela! És meu! amo-te! hei de defender-te de toda e qualquer mulher, seja uma das minhas ou seja uma donzela de quinze anos!
- Queres então que eu me arrependa de haver consentido em ser teu amante?
- Não sei! quero é que não me deixes! Sou muito mais velha do que tu; espera que eu morra e casarás depois com uma das que aí ficarem.
- És má!
- Sou mulher.
- Adeus.
E fez alguns passos na direção da porta; ela atirou-se-lhe no pescoço e começou a soluçar, beijando-o todo, sofregamente, como quem se despede do cadáver de um ente querido a que vão sepultar.
Teobaldo, entretanto, conseguiu desviar-se-lhe dos braços e saiu, disposto a nunca mais tornar ao lado dela.
Mas, no dia seguinte, às duas da tarde, trabalhava no escritório do patrão, quando viu parar à porta o carro de Leonília e logo, em seguida, entrar esta pela casa, à procura do Sr. comendador Rodrigues de Aguiar.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.