Por Aluísio Azevedo (1897)
— Logo mais, a qualquer hora... Vem às quatro.
— Pois bem, até às quatro, disse o rapaz, beijandoa na testa.
E meteuse no carro.
Ambrosina, logo que ele se retirou, correu ao quarto de Laura.
— Preparate para ires hoje mesmo comigo lá para casa. Teu pai consente. Mas agora desejo que me ajudes a vestir a toda pressa...
— Onde vais?
— Tenho muito que fazer. Só mais tarde saberás todos os passos que dou por tua causa...
Um pequeno, filho da vizinha, foi chamar um carro, e Ambrosina apareceu pronta na sala.
Rua da Misericórdia..., disse ela em voz baixa ao cocheiro.
O carro seguiu, e vinte minutos depois parava defronte de um grande sobrado antigo, cheio de janelas quadradas.
Era uma casa de alugar cômodos.
— Espere por mim, soprou a moça ao cocheiro, e subiu a longa escada do sobradão.
Atravessou, sem fazer caso, o primeiro e o segundo andar; chegou cansada ao último.
— Qual destas portas será!... pensou ela, hesitando em bater a qualquer das quatro que tinha defronte de si.
Nisto, abriuse uma delas, e Melo Rosa, vestido de casimira clara, apareceu com um sorriso.
— Ah! pensei que já não viesses! É quase uma hora!
— Não me fales, homem! Uma visita de Gabriel.
— Sim, hem! Mas, vai entrando, filhinha. Não podemos perder tempo: temos muito que falar!
— Uf! fez Ambrosina, atirandose sobre uma cadeira. Arre! que esta casa mata uma criatura! Estou a botar os bofes pela boca! Aqui não me pilharias duas vezes!
— Sim! Mas toda cautela é pouca... Nós temos de tratar de negócios, que nos podem meter a ambos na cadeia!...
— Deixame descansar um pouco.
— Toma um grogue...
— Dáme qualquer cousa. Uf!
Melo Rosa serviulhe o grogue e, depois de acender um charuto, foi colocarse ao lado dela.
— Ora, vamos lá a saber em que pé se acham os nossos interesses!...
— Está tudo pronto. Logo mais receberás um bilhete meu, que te marco o nosso encontro definitivo lá em casa, amanhã às quatro horas da tarde...
— Em Laranjeiras?
— Sim.
— E daí?
— Daí é que se torna indispensável que não deixes de ir!
Ambrosina chamava a si a paternidade do bilhete ditado por Gabriel.
— Mas, continuou ela; para que Gabriel não nos embargue a fuga, é mister que, antes de me procurares, já tenhas providenciado sobre e1e...
— Como assim?... perguntou Melo Rosa, seguindo com todo o interesse as palavras da rapariga.
— Dizme uma cousa, Melo! estás seriamente resolvido a fugir amanhã comigo, ocupando tu o lugar de Gabriel?!...
— Se estou resolvido? É boa! Achas então que eu chegaria a este ponto e recuaria agora defronte de qualquer dificuldade?... Nunca me arrependo do que faço; disse que ia contigo, e irei! Afinal para isso é preciso cometer um crime? Bem! eu cometerei! O amor fez de mim um ladrão? Seja! Eu roubarei os vinte contos de réis de Gabriel para poder acompanharte! Estou resolvido a tudo!
— Ah! exclamou Ambrosina; acredito agora que me ames! Só nestas situações melindrosas, em que jogamos a vida e a honra, é que se pode reconhecer amor verdadeiro; esse que não aceita barreiras, nem conveniências de nenhuma ordem! Eu serei a tua cúmplice, e nunca me arrependerei disso. "Tudo que é inspirado pelo amor, disse George Sand, é sempre belo e sublime!" E foi só o amor que nos inspirou!
— E perguntas ainda se estou resolvido a fugir contigo!...
— Pois bem! assentou Ambrosina, segurando com veemência as mãos de Melo Rosa; para podermos fugir, é necessário que Gabriel amanhã as quatro horas da tarde esteja preso sem lugar seguro donde não possa sair antes de nossa partida... E esse o único meio que temos para não nos ser embargada a viagem!
Melo Rosa concentrouse.
— E onde será ele encontrado por essa hora? perguntou afinal, depois de uma pausa.
— Onde eu quiser! respondeu friamente Ambrosina.
O que preciso saber ao certo é se te podes encarregar, com segurança, de dar as providências necessárias para que ele seja preso.
— Posso... disse Meio, depois de uma nova pausa.
— Mas, repara bem para o que prometes... observoulhe a embusteira com um olhar sério. Se não conseguires retêlo, não poderemos fugir, e tu serás preso como ladrão! Vê lá!
E fez por sua vez uma pausa, para estudar na fisionomia do rapaz a impressão causada por suas palavras.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.