Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Em 1821 e 1822, reuniu por vezes em seu acanhado recinto um clube de patriotas, e depois da proclamação da independência foi muito freqüentada pelo Sr. D. Pedro I, imperador do novo Império.
Quando, no Rio de Janeiro, se tratou de impedir a retirada do Sr. D. Pedro, então príncipe regente, para Portugal, o Capitão-Mor José Joaquim da Rocha, o Coronel Nóbrega e outros, reuniram-se repetidamente na cela de Frei Sampaio, e foi aí que prepararam alguns dos grandes acontecimentos que em seguida chegaram a ter lugar e que foram os precursores do grito do Ipiranga.
Frei Sampaio foi o redator de um jornal político que naqueles anos se publicou sob o título O Regulador, e em que sustentou princípios liberais moderados. Era da sua cela que mandava para a imprensa os autógrafos, e ainda hoje se conserva no convento de S. Antônio um livro em cujas páginas ele, pela sua própria mão, deixou copiados os principais artigos que fez imprimir no seu periódico e em outros.
Algum tempo depois da independência, Frei Sampaio começou a desagradar aos liberais, que principiavam a manifestar aquela oposição, que só acabou triunfando em 7 de abril de 1831.
Diziam os liberais que o ilustre franciscano escrevia obedecendo às inspirações e à vontade do Sr. D. Pedro I, que o conquistara com obséquios e provas de afeição, e assentavam o seu dizer em um fundamento que a muitos parecia seguro, porque era na verdade que o Sr. D. Pedro I ia freqüentes vezes ao convento de S. Antônio, e não poucas ficava desde o anoitecer até às 19 horas da noite na ceia de Frei Sampaio, ouvindo-o ler os seus artigos, e com ele discorrendo sobre política.
Mas tudo isso já lá vai, e tudo desapareceu. Perderam-se os sermões do eloqüente pregador, por pouco que não desapareceu também a sua cela, e perderam-se até os ossos desse homem ilustre.
Direi como se extraviaram os ossos de Frei Sampaio, e tratando deste ponto, escreverei a última página em que neste passeio me ocuparei do célebre franciscano.
Quando Frei Sampaio faleceu, alguns de seus compatriotas e admiradores determinaram mandar preparar uma urna digna de receber-lhe os restos. Abriram para isto uma subscrição e encomendaram a urna a um artista de nome Adriano, que teve uma oficina de entalhador na Rua Senhor dos Passos.
Chegado a tempo competente, dirigiu-se um antigo amigo do finado ao convento de S. Antônio, onde era muito conhecido e considerado, e depois de instâncias reiteradas, obteve os ossos de Frei Sampaio.
Mas o entusiasmo tinha já esfriado. Os subscritores não concorreram com as quantias competentes. O descuido fez esquecer a gratidão. Faltou o dinheiro, quando a urna se achava pronta, e os ossos do grande pregador foram abandonados e esquecidos na oficina de Adriano.
Dói a um brasileiro escrever estas tristes verdades. Sirvam elas, porém, ao menos, para castigo da nossa repreensível incúria.
Entretanto, Adriano incomodava-se com a urna que lhe custara trabalho e despesa, e que continuava na oficina a lembrar-lhe o prejuízo sofrido. Sabendo, porém, que o Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia procurava uma urna para recolher os ossos de seu pai, o ilustre padre José Maurício Nunes Garcia, correu a oferecer-lhe a que tinha.
O Sr. Dr. José Maurício foi à oficina de Adriano, comprou a urna, e vendo a ossada de frei Sampaio, e reconhecendo-lhe a cabeça pelo único alvéolo incisivo que apresentava e que fazia lembrar um defeito que pelo correr dos anos experimentara em sua dentadura o célebre pregador, levou consigo essa cabeça que tão grande se mostrara, e que Adriano cedeu sem a mais leve oposição.
Os anos correram, Adriano morreu. Os ossos de Frei Sampaio extraviaram-se para sempre, e apenas a cabeça óssea nos resta, conservada pelo ilustrado médico e habilíssimo mestre de anatomia que nas suas lições de antropotomia deu uma curiosa descrição, ou antes, fez um estudo conciencioso e interessante daquela preciosa relíquia.
O Sr. Dr. José Maurício considera “o crânio de Frei Sampaio como um tipo dos melhores – das belas formações cranianas”, e declara “que ele se presta a todos os sistemas craniométricos, melhor do que nenhum dos que há podido ver”.
Debaixo do ponto de vista frenológico, o Sr. Dr. José Maurício faz ainda notar o extraordinário desenvolvimento da bossa da idealidade, que Gall e Spurzheim se extasiariam, encontrando na cabeça daquele pregador tão famoso pelos seus improvisos felizes e pela sua eloqüência arrebatadora.
O estudo feito sobre o crânio de Frei Sampaio é cheio de
importância e de interesse, e para as lições de antropotomia do nosso muito
distinto lente jubilado de anatomia remeto os meus companheiros de passeio que
desejarem devidamente apreciar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.