Por José de Alencar (1872)
- As coisas estão bem dispostas, mas sem algum dinheiro...
O visconde pulou à semelhança dum martelinho de piano, quando lhe tocam na tecla:
- Não creia nisso. Eleição, meu doutor, é o governo que a faz; o mais são petas. Quando ele perde, é de propósito para pregar o mono a certos sujeitos. Se o senhor tem o governo por si, deite-se a dormir, não precisa de mais nada; se não o tem perde seu tempo e seu cobre. É cuidar noutra coisa.
- Não é tanto assim...
Nesse momento saíra Ricardo da loja.
- Chegou a sua vez, disse o visconde ao Nogueira empurrando-o amigavelmente. Vá emgambelar a rapariga. Arde, ponha para fora toda a sabença e desbanque-me o tal bonifrate! Eh!eh!...
E trinando o seu riso em falsete, o Aljuba lá se foi a trote miudinho, rua acima, para o escritório.
Entretanto cismava Ricardo no segredo do jantar para que fora convidado; e dois dias depois, na manhã de sábado, ainda ocupava-se com esse capricho de senhoras, muito inclinado a abster-se do convite, apesar de o haver aceitado por delicadeza.
Achou porém em seu espírito boas razões, que o dispuseram; e às quatro horas da tarde apeava-se do tílburi no palacete de Botafogo.
A reunião era mais numerosa que de costume. Além dos infalíveis, notava-se grande número de capitalistas e negociantes, a creme da praça. Aí estavam todos os nossos conhecidos, menos o visconde da Aljuba. Havia na sala a atmosfera moral que se forma pela expectativa e curiosidade do desconhecido. Os amigos encontrando-se inquiriam da novidade e perdiam-se em conjeturas acerca da reserva com que se tinham feito os convites, do segredo recomendado, e da surpresa que sem dúvida estava preparada para o banquete. Sintoma bem significativo da importância dessa reunião, que sob a aparência de festa ocultava talvez um acontecimento, era a presença de D. Leonarda Torres, a avó materna de Guida, ou a “avozinha” como a chamava a menina.
A mãe de D. Paulina, velha de sessenta anos, nunca aparecia na sociedade; o defeito de uma perna proveniente de reumatismo gotoso, e o gênio a retinham constantemente em casa.
Nesse dia, Guida conseguira arrancá-la de seu retiro para fazê-la assistir à festa. E o que não obteria a gentil menina da velha, que morria-se de amores por ela?
À chegada de Ricardo, Guida o levou para junto da velha, sentada à parte em uma cadeira de roldanas:
- Avozinha, aqui lhe trago uma pessoa para conversar. É o Dr. Nunes.
- É médico? perguntou a velha.
- Não, respondeu Guida sorrindo-se por adivinhar o pensamento da avó, que era falar de seus achaques. Mas é filho de São Paulo.
- Está bom!
- Fale-lhe de sua terra! disse Guida voltando-se para Ricardo. Ela passou lá muitos anos, quando menina; e ainda tem saudades.
- Ah! morou em São Paulo algum tempo? disse Ricardo. Na capital mesmo?
- No Brás. Não conheces a casa de D. Belmira de Leme Torres?
- Muito; minha família e a sua visitam-se.
- Pois estimo bem. É minha prima.
- Agora, disse Guida alisando os cabelos brancos da velha, não se há de aborrecer mais. Tem quem a distraia; não é assim?
E deixou os dois em conversa.
De todas as pessoas na sala nenhuma estava tão desnorteada, como ficou o Soares que ao voltar do escritório para o jantar caseiro e o repouso da sesta, encontrou o palacete em festa, cheio de amigos com que decerto não contava achar-se naquele dia.
- Que história é esta? perguntou o banqueiro que tudo levava em ar de brincadeira. Querem ver que o Aljuba espalhou que eu ia pôr-me ao fresco, e vocês pelo seguro vieram cercar-me a casa? Finórios!... Também tu, conselheiro! Vieste agarrar o teu velho camarada!
- Que dizes?... Não vão bem os teus negócios? acudiu o Barros amornando a sua fria e pachorrenta gravidade. Bem sabes que até onde eu puder!...
Soares abraçou-o com efusão, mas logo afogou esse impulso na perene galhofa:
- Estás sonhando, meu velho! Nunca me correram tanto à feição os negócios, como depois que o farsola do visconde me anda a agourar. Tu sabes, praga de urubu... Mas deveras que vieram vocês a fazer? Quem os chamou cá? - É boa! Pois não nos convidaste para jantar!
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.