Por José de Alencar (1875)
— Quando corria, lembrei-me que em vez de dar caça a um boi magro e fujão, empregaria melhor o meu tempo colhendo estas lindas flores para a senhora D. Genoveva e sua formosa filha, de quem são irmãs, pois também são flores, porém mais meninas e menos encantadoras. Dá-me licença que lhe ofereça, a ela, D. Flor e à sua gentil companheira?
O galanteio era bem torneado para o tempo, e foi expresso com um apuro de maneiras, que já não se usa agora, e ainda mais naqueles sertões de gente franca e rude.
— Agradeço por mim e por elas, disse D. Genoveva, distribuindo as flores pelas duas moças.
— São muito lindas, observou D. Flor ao mancebo. Chamam-se bilros.
— Ah! não sabia, acudiu Fragoso; serão de fadas, pois que outros dedos podem tanger bilros tão graciosos e delicados, que nem os de coral os excedem?
Convidou então Marcos Fragoso as senhoras a se apearem para recolherem-se do sol, na tenda já armada alí perto.
VII – A volta
Na ourela da mata, à sombra de umas grandes sicupiras copadas de flores roxas, tinham os criados do capitão Marcos Fragoso arvorado um tôldo de damasco amarelo, sôbre estacas vestidas com o mesmo estôfo de côr azul, formando assim um vistoso e elegante pavilhão.
Alí já estava armada a mesa, a qual, feita de improviso com quatro forquilhas e ramos, ocultava êsse aspecto rústico sob as telas de sêda que a fraldavam até o chão. Sôbre a alvíssima toalha do melhor linho de damasco, ostentavam-se com profusão as várias peças de uma riquíssima copa de ouro, prata, cristal e porcelana da Índia, que ofereciam ao regalo dos olhos, como do paladar, os vinhos mais estimados e as mais saborosas das iguarias da época.
As canastras em que tinham vindo todos êsses objetos, reunidas umas às outras de ambos os lados da mesa e fraldadas igualmente de telas de sêda escarlate, formavam dois sofás ou divãs para assento dos convidados.
O chão fôra tapeçado com uma grande alcatifa mourisca, na qual se viam estampadas as figuras das hurís e dos guerreiros bem-aventurados, trançando no paraíso as mais graciosas dansas orientais, ou trocando entre si ardentes carícias.
Felizmente para a tranquilidade do banquete, as estampas da tapeçaria ficavam quase de todo ocultas pela mesa e assentos; pois do contrário o capitão-mór, apercebendo-se de semelhante desvergonhamento, não o suportaria de-certo; e nós já sabemos a fôrça de pressão do seu orgulho, quando ofendido.
As damas que tinham-se recolhido ao pavilhão por convite de Fragoso, já estavam sentadas no sofá; e só esperavam para se porem à mesa, a chegada do capitão-mór e dos outros companheiros, que aproveitavam o tempo a montear as reses bravas.
A vitela que forneceu a carne para o banquete fôra lançada pelo próprio capitão-mór e sangrada pelo Daniel Ferro. O João Correia tinha feito também a sua proeza. Correndo atrás de um boiote, foi sôbre êle com tal fúria, que, focinhando o seu cavalo no chão, achou-se êle montado no novilho; êste espantado com a carga deitou a correr para o mato como um desesperado. O primeiro ramo baixo atirou ao chão com a carga.
O capitão-mór apenado-se, contou à mulher a façanha do recifense.
— Aquí está o sr. capitão João Correia, que levou as lampas a todos, D. Genoveva. Montou num boiote, e largou-se a correr para o mato com tanta fúria que furou pela terra a dentro.
— Então divertiu-se muito? perguntou D. Genoveva ao capitão para arredar a lembrança do seu revés.
— A vaquejada é um belo passatempo, sem dúvida; mas eu prefiro a caça a tiro.
— Então já não é vaquejada; é matança como usam os que precisam da carne para comer, disse o Daniel Ferro.
Pagens do reino, vestidos de garridas librés à moda do tempo, com longas casacas de abas largas, calções e meias brancas, vieram apresentar às damas e convidados ricas bacias de prata dourada, para lavarem as mãos, entornando água de jarros do mesmo lavor e metal.
Ao ombro esquerdo traziam êles alvas toalhas do mais fino esguião lavradas de labirinto com guarnições de renda, trabalhos êstes em que as filhas do Aracatí já primavam naquele tempo, e que lhes valeu a reputação das mais mimosas rendeiras de todo o norte.
Depois que o capitão-mór e sua família enxugaram as mãos, o Marcos Fragoso fazendo as honras do banquete com a apurada cortesia, conduziu à mesa seus convidados colocando-os nos lugares a cada um destinados conforme o grau de cerimônia e importância.
Ao capitão-mór coube a cabeceira; as damas com o capelão ocuparam um lado; e o outro lado ficou para Ourém, Daniel Ferro, João Correia e o Agrela; Marcos Fragoso sentou-se no tôpo.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.