Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Os aventureiros chegaram-se formando um círculo ao redor de Aires Gomes; Rui já tinha tido ocasião de lançar uma palavra ao ouvido do italiano; e ambos, um pouco pálidos mas resolutos, esperavam o desfecho daquela cena. 

— O Sr. D. Antônio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermédio vos faz saber a sua vontade: e manda que ninguém se afaste um passo da casa sem sua ordem. Quem o contrário fizer, pereça morte natural. 

Um silêncio morno acolheu a enunciação desta ordem. Loredano trocou uma vista rápida com os seus dois cúmplices. 

— Estais entendidos? disse Aires Gomes. 

— O que nem eu, nem meus companheiros entendemos e a razão disto, retrucou o italiano avançando um passo. 

— Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros. 

— As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com uma certa solenidade. 

— Contudo nós... ia dizendo Loredano. 

— Toca a debandar! gritou Aires Gomes. Aquele que não estiver contente, que o diga ao Sr. D. Antônio de Mariz. 

E o escudeiro com uma fleuma imperturbável rompeu o circulo e começou a passear pelo terreiro olhando de traves os aventureiros e rindo à sorrelfa do seu desapontamento. 

Quase todos estavam contrariados; sem falar dos conspiradores que se haviam emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros, cujo divertimento era caçar e bater os matos, não recebiam a ordem com prazer. Apenas alguns de gênio mais bonachão e jovial tinham tomado a coisa à boa parte, e zombavam da contrariedade que sofriam seus companheiros. 

Quando Álvaro se aproximou todos os olhos se voltaram para ele, esperando a explicação do que se passava. 

— Sr. cavalheiro, disse Aires Gomes, acabo de transmitir a ordem para que ninguém arrede pé da casa. 

— Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros: assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos selvagens, e toda a prudência é pouca nestas ocasiões. Não é só a nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós; é sim a pessoa daquele que confia em nosso zelo e coragem, e mais ainda o sossego de uma família honrada que todos prezamos. 

As nobres palavras do cavalheiro, e a afabilidade do gesto que suavizava a firmeza de sua voz, serenaram completamente os ânimos; todos os descontentes mostraram-se satisfeitos. 

Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a combinação do seu plano; pois era arriscado tentá-lo em casa, onde o menor gesto o podia trair. 

Álvaro trocou poucas palavras com Aires Gomes, e voltou-se para os aventureiros: 

— D. Antônio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para acompanharem seu filho D. Diogo à cidade de São Sebastião. É uma missão perigosa; quatro homens nestes desertos marcham de perigo em perigo. Quem de vós se oferece para desempenhá-la? 

Vinte homens se adiantaram; o cavalheiro escolheu três entre eles.

— Vós sereis o quarto, Loredano. 

O italiano que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou como fulminado por estas palavras; sair naquela ocasião da casa era perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausência tudo podia se descobrir. 

— Pesa-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas sinto-me doente, e sem forças para uma viagem. 

O cavalheiro sorriu. 

— Não há enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever; sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano. 

Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros: 

— Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a vossa vida em minha mão e vos faço esmola mandando-vos sair desta casa? 

O italiano compreendeu que não tinha remédio senão partir; bastava que o moço o acusasse de ter atirado sobre ele, bastava a palavra de Álvaro para fazê-lo condenar pelo chefe e pelos seus próprios companheiros. 

— Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por ele; partis em meia hora. 

Álvaro retirou-se. 

Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre ele; mas a pouco e pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorriu. Para que sorrisse era necessário que alguma inspiração infernal tivesse subido do centro da terra a essa inteligência votada ao crime.  

Fez um aceno a Rui Soeiro, e os dois encaminharam-se para um cubículo que o italiano ocupava no fim da esplanada. Aí conversaram algum tempo, rapidamente e em voz baixa. 

Foram interrompidos por Aires Gomes, que bateu com a espada na porta: 

— Eh! lá! Loredano. A cavalo, homem; e boa viagem. 

O italiano abriu a porta, e ia sair; mas voltou-se para dizer a Rui Soeiro:

— Olhai os homens da guarda; é o principal. 

— Ide tranqüilo. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7273747576...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →