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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

O olhar penetrante e desconfiado do velho esteve, durante toda a conferência, constantemente fito no rosto de Mariana, e não pôde apanhar o mais leve indício de fingimento. A verdade estava fechada no coração da viúva com uma porta de ferro.

– Estou determinado a ir ao “Purgatório-trigueiro”, disse Anacleto olhando sempre fixamente para sua filha.

– Creio que é o melhor passo a dar, respondeu ela sem hesitar.

– Devo pedir uma explicação a esse moço.

– Sem dúvida, tornou a viúva; ninguém melhor do que ele pode esclarecer este mistério.

– Supões que me cumpre esperar ainda alguns dias?... perguntou o velho observando.

– Ao contrário, disse Mariana, penso que meu pai deve ir falar-lhe hoje mesmo.

– Bem... irei esta noite.

A filha de Anacleto apreciava com justeza o caráter de Cândido para temer que ele declarasse o que havia ocorrido; e sobretudo jogava ainda com a probabilidade do silêncio do mancebo, porque, mesmo quando falasse, ela contava com o extremoso amor de seu pai para ser perdoada.

Ao começar da noite Anacleto dirigiu-se ao “Purgatório-trigueiro”.

Começou conversando com a velha Irias, a quem pediu explicações a respeito da ausência de seu filho adotivo.

A resposta da velha Irias foi uma e única:

– Ele está lá em cima, e melhor do que eu poderá dizer se teve razões para retirar-se.

Anacleto fez-se anunciar a Cândido.

Quando o moço vinha descendo a escada, Anacleto começou a subi-la dizendo:

– Sou sem-cerimônia, meu caro, e quero antes ir conversar lá em cima.

O velho e o mancebo acharam-se a sós defronte um do outro.

– Adivinha certamente o motivo que me traz aqui?... perguntou Anacleto. Cândido não sabia fingir, e respondeu:

– Talvez.

– Pois então... ia dizendo o velho.

– Mas, é melhor que o exponha o senhor, interrompeu o mancebo; é possível também que eu esteja enganado, e que nossos pensamentos, que supomos reunidos em uma só idéia, se achem pelo contrário bem afastados um do outro.

– Não; não estão.

– Enfim, sou eu quem deverá ouvir as causas de uma visita que, em todo o caso, muito me lisonjeia.

– Meu caro, disse Anacleto, eu ponho as formalidades e as etiquetas para o lado, quando converso com aqueles de quem sou amigo; e nós o somos.

Cândido abaixou a cabeça em sinal de agradecimento.

– Ou pelo menos, tornou o velho, eu o sou seu.

O moço tornou a repetir com a cabeça o mesmo sinal de há pouco.

– Deixemo-nos pois de longos rodeios, e vamos já ferir de face a questão. O senhor retirou-se de minha casa de um modo singular: de duas uma, ou alguém lá o ofendeu, ou o senhor nos ofende; e em todo caso uma explicação se faz necessária.

Cândido empalideceu a próprio pesar, e ficou pensando.

– Estuda para responder? perguntou o velho.

Com um sorriso fraco e triste respondeu o mancebo.

– Agradeço-lhe, senhor, a delicadeza com que me trata, e o interesse que eu não mereço; mas que, apesar disso, mostra por mim.

– Não se trata de agradecimentos, nem de delicadezas e nem de interesses: o caso é simples, meu caro; alguém o ofendeu em minha casa?...

– Ninguém, disse o mancebo, rindo-se amargamente como há pouco.

– Então como devo eu explicar o que ocorreu. e está ainda ocorrendo?...

– Explique como quiser, senhor; explique pela minha má cabeça.

– Como é isso?...

Cândido pensou alguns instantes e começou depois a falar.

– Eu errei em não ter agradecido, em não haver fugido de aceitar o oferecimento que V. Sa. me fez da sua casa...

– Quê?...

– Ah! senhor! eu direi tudo. Invejar a ventura dos outros é um crime; mas forçar um infeliz a ter diante dos olhos e constantemente o quadro da felicidade alheia, é quase rir de seus tormentos!

– Então...

– Sua casa é um céu de prazeres e... de virtudes; estar porém ali um desgraçado que não pode fruir esses prazeres, e, que, se acaso tem uma ou outra virtude, não a pode mostrar para ser por ela estimado, é o martírio de Tântalo... a causa creio que foi essa; eu me retirei por isso.

– Sr. Cândido, há nas suas palavras alguma coisa que se parece com a ironia, e há no seu coração algum sentimento que quer sair e não pode, porque o senhor impede.

– Não... não... tudo se diz em uma palavra; eu sou infeliz, e tenho consciência de o ser. Além da realidade de meu infortúnio, senhor, a natureza deu-me ambições, deu-me desejos que não posso realizar, e que por conseqüência me atormentam.

(continua...)

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