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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

No meio desses juramentos de eterna estima, que as jovens senhoras proferem em um sarau, ao som das contradanças, e que cinco minutos depois esquecem; no meio desses beijos, dessas carícias que se dão, e se despedem com as faces ardendo e o coração gelando, a amizade sincera de duas moças fulge como brilhante sem jaça entre a multidão de falsas pedras; e os corações daquelas pendem um para o outro, ao doce impulso da amizade, semelhante a duas mimosas flores, que se aproximam e se tocam impelidas pelo sopro de matinal favônio.

Uma amizade desse gênero ligava Honorina a Raquel; elas amavam-se como duas irmãs gêmeas, que se amam muito.

São onze horas da noite.

Melancólicas e pálidas velavam duas virgens na solidão de suas câmaras: estavam separadas uma da outra por esse braço do oceano, que passa entre as duas cidades do Rio de Janeiro e de Niterói, e além se estende, beijando namorado brancas orlas de sossegadas praias, e namorado abraçando ilhotas graciosas; mas, no entanto, acima desse mar e subindo ao céu, encontravam-se talvez os pensamentos de ambas, porque pensavam uma sobre a outra.

Honorina de repente se entristecera, lembrando-se de Raquel: no meio de sua alegria recordou-se de que uma paixão fatal e reprovada torturava a alma de sua amiga; incapaz de dizer uma mentira a Raquel, e nesta confiando muito, acreditou que ela amava um homem casado; e a lembrança do padecer da escolhida de seu coração a mergulhava em um mar de cruéis reflexões. Honorina não achava um só meio de servir a Raquel: Honorina chorava.

Passado algum tempo, a filha de Hugo de Mendonça foi ajoelhar-se ante uma imagem da Mãe de Deus: Honorina rezava.

Raquel sentia que o amor que votava ao moço loiro a cada instante se tornava mais e mais ardente; cedendo às vezes à influência de sua imaginação, sonhando um momento acordada, ia desenhar belos arabescos no painel de seu futuro; mas de súbito se lembrava de Honorina, da sua fiel e única amiga, do amor que lhe tinha aquele a quem amava, e uma barreira imensa... insuperável se erguia entre Raquel e a felicidade: então ela de novo castigava seu espírito, fazendo votos pela ventura de Honorina; mas pensando também em si... Raquel chorava. E a filha de Jorge foi ajoelhar-se, como à mesma hora o fazia Honorina, ante uma imagem da Mãe de Deus. Raquel rezava.

E no fim de uma hora, Honorina, que tinha concluído suas orações, antes de levantar-se, ergueu as mãos para a sagrada imagem e exclamou:

— Oh! minha Mãe Santíssima!... tende piedade daqueles que padecem!... curai a dor do meu coração, fazendo a felicidade de Raquel!...

E também no fim de uma hora, Raquel, que tinha concluído suas orações, antes de levantar-se, ergueu as mãos para a sagrada imagem e exclamou:

— Oh! minha Mãe Santíssima... abençoai e protegei o amor de Honorina; mas tende comiseração de mim, que muito sofro!...

XXII

Ele

Na manhã do dia seguinte o moço ferido, que se achava na casa da pobre Sara, achou-se melhor; sentia apenas que, ainda nimiamente fraco, não podia deixar aquela casa sem um companheiro que o sustivesse.

Sara e Miguel estavam à mesa almoçando com a melhor disposição, quando viram aparecer à porta da varanda o seu doente.

— Ninguém se desarranje por minha causa, disse ele alegremente; eu me acho melhor e, falando sem-cerimônia, tenho bastante fome.

— Mas...

— Nada... nada de reflexões, continuou sorrindo-se; mãe Sara (permita que lhe chame assim), dê-me uma xícara do seu café e metade do seu pão... eu já estou bom... completamente bom... e sinto uma fome terrível... ah!... então parece que duvidam!... pois, meus bons amigos, eu não faço cerimônia... com licença.

E dizendo isto o moço serviu-se de café e pão, e começou a fazer boa companhia aos seus hóspedes; já se dispunha a repetir segunda dose de café, quando a velha o suspendeu.

— Alto lá, senhor! não se come tanto de uma vez ao entrar em convalescença...

— Também acho-lhe razão, mãe Sara, e sujeito-me agora a suas determinações; porém, ali pelo correr das duas horas há de fazer-me o favor de servir-me com uma... está bem, não vamos tão depressa; com metade de uma galinha ensopada, guisada, assada, ou como lhe parecer. É certo que agora não tenho dinheiro, porém amanhã, mãe Sara, eu lhe prometo que há de ser paga de suas despesas e trabalhos.

— Que despesas, moço! até esta hora ainda não me fez gastar um vintém... não falemos nisso; eu estou bem contente de vê-lo assim alegre...

— Obrigado, mãe Sara; agora tenho um negócio com o Sr. Miguel...

— Então quer que eu faça alguma coisa?

— Sim, meu amigo: eu quero que ao toque das oito horas da noite esteja hoje o senhor junto às grades do templo do Carmo.

— Bem; e depois?...

(continua...)

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