Por Lima Barreto (1909)
Lemos era dos poucos que tinham ficado no jornal. O tempo trouxera à redação inevitáveis modificações. Lobo enlouquecera e estava recolhido ao hospício A sua mania era não falar nem ouvir. Tapava os ouvidos e mantinha-se calado semana inteira, pedindo tudo por acenos. Ao médico que lhe perguntou por que assim procedia, explicou, a muito custo:
— Isto não é língua... Não a posso ouvir... Tudo errado... Que vai ser disto!
— E por que não fala?
— Os erros são tantos, e estão em tantas bocas, que temo que eles me tenham invadido e eu fale esse calão indecente...
E vivia calado pelos corredores, lendo a Ensynança de Bem Cavalgar de El-Rei Dom Duarte. Às vezes, entusiasmada e lia alto: “Ca som alguus [nota: 2o u com til] boos caualgadores dhuãs sellas queo nom son doutras".
Um colega de manicômio, ao ouvir tão linda coisa, perguntou ao gramático:
— Que línguas é esta?
Vendo de que maneira insólita era tratada tão interessante obra, Lobo atirou o livro ao chão e encheu de murros a cara do companheiro de infortúnio. Foi metido na casa forte, com camisa-de-força. O doutor Gregoróvitch, desgostoso com a cor governista do jornal, não mais soube escrever. Um dia mandaram-lhe fazer um elogio a um ato ministerial, e quase lhe saiu uma descompostura. Não sabendo elogiar, procurou a quem atacar sem comprometer o jornal. Descobriu a República Argentina; mas, em breve, o assunto se esgotou e ele ficou sem inimigos. Arranjou alguns contos com um ministro e partiu para Caracas em busca de novas aventuras e oposições. O jovem Deodoro Ramalho formara-se e deixou a literatura sem pesar, sem saudade, assim como o coxo que abandona uma muleta velha. Fizera literatura como anúncio para a clínica futura e abandonava-a quando viu que ela viria comprometer a gravidade do mister e a respeitabilidade dos cargos que iria ocupar. Leporace abraçara com ardor o lagar das antigüidades egípcias lia agora o Maspero. Deixou o jornal e Losque tomou-lhe o lugar. Vieram outros, mas esses conheci mal.
Imutáveis eram o Oliveira e o Meneses, sempre tímido, este, escrevendo os artigos difíceis, mas sem melhoras de ordenados. Entretanto Aires d'Ávila ganhava dois contos para escrever algumas banalidades fatigantes.
Sempre que via o resignado Meneses, muito feio, marcho, a escrever as melhores coisas do jornal, punha-me a pensar por que o equilíbrio do jornal pedia que aquele rapaz ficasse embaixo e no alto pairassem Loberant, Leporace e Aires d'Ávila. A sua timidez e a sua modéstia não lhe davam o charlatanismo indispensável para levá-lo para diante. Ele sabia o que ignorava e não se atrevia a julgar tudo. Gregoróvitch não se cansava de lhe dizer:
— És uma besta! Então te sujeitas a ser burro de carga! Desta maneira não te impões!
E ele, depois de ouvi-lo com a sua atenção de surdo, ficava a olhar o russo, a rolar os olhos nas órbitas, como que a perguntar quais eram as maneiras de nos impormos. Vira sem inveja nem assombro a minha brusca ascensão e o crescimento acelerado da minha amizade com o diretor.
Eu e ele éramos agora dois amigos íntimos, companheiros de pândegas e noitadas. Sentindo-me realmente educado e sofrivelmente intruído, o doutor Loberant como que sentia remorsos de não ter adivinhado isso e permitido que eu ficasse tanto tempo como continuo de sua redação. Enchia-me de atenções e dinheiro. Levava-me a toda a parte, gabando-me o talento e o caráter. Quando lhe falei em abandonar o Rio e lhe pedi que se interessasse para obter o lugar que ocupo, ficou assombrado:
— Mas por quê, Isaías? Quais são teus desgostos? O que te falta?
Eu nada quis dizer. Percebia muito bem que ele não compreendia as ânsias do meu temperamento nem as angústias da minha inteligência.
— Quero casar-me, ter sossego para criar e educar os filhos.
Não consegui realizar tudo isto. Casei-me, é verdade; mas o único filho que tive, acaba de morrer em tenra idade. O doutor, depois da minha resposta, objetou:
— Mas não precisas, para isso, sair do Rio... Com esta idade, ires para o mato é tolice!
E tive muito que insistir para resolvê-lo a intervir junto ao ministro; e no dia da partida, depois de ter ele próprio prestado a fiança necessária, senti que ficava com saudades minhas. Vivemos dois ou três anos juntos, bebendo e pandegando. Ele apanhava-me as considerações e repetia-as por sua conta; eu dava expansão ao meu bom humor sombrio, à minha tristeza interna, aos meus desejos vagos que não tomavam vulto.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.