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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Músicas militares, de espaço em espaço, tocavam elegias; os lampiões de gás semi acesos, cobertos de crepe, davam um ar fúnebre às ruas; e D. Florinda, com a sua choregiada de caboclos entoava nos intervalos um fúnebre hino tupi.

E jo mi rean

Maenram pico?

E jo tenan

Apu ma nico

Ao acabar a quadra, todos, a uma só voz, repetiam:

Maenran pico?

Maeran pico?

Pela turba passava um estremecimento religioso e trombetas fanhosas e agudas estridulavam sinistramente. E continuavam:

Eguapi napê...

Maenran pico?

Eguapi tenon!

Aguapi ma nico

Mal terminavam de cantar a quadra, o coro repetia em longa e profunda toada:

Maenran pico

Maenran pico

De novo as trombetas guinchavam e o préstito caminhava lentamente, em direção ao cemitério. Houve quem dissesse que o hino de D. Florinda era uma canção erótica de origem paraguaia; entretanto, esse detalhe não foi notado e os adeptos de Bentes muito prezaram tão bela homenagem à memória de seu tio.

Esse aspecto caboclo não foi o único da singular manifestação fúnebre que D. Florinda organizou. Os caboclos, convém dizer, ao cantar — E jo mi rean dançavam, sacudiam a juba e faziam roda ao chegar o coro.

Além desse aspecto, houve outros que não iam sendo mencionados. Havia associações de estivadores, de operários, de funcionários, de militares, de senhoras que tomaram parte com seus estandartes de seda, além dos clubes e cordões carnavalescos. Inácio da Costa acompanhou o préstito a cavalo, um cavalo do regimento policial. Ele vestido particularmente de verde e amarelo e o cavalo ajaezado com florões desses crótons que antigamente chamavam —

“Independência”.

Trazia, à guisa de lança, um estandarte em que se lia na bandeirola: “À bala”.

Formou-se essa espécie de marcha solene, sob as vistas atentas da polícia; e desfilou vagarosa, ao som das músicas, cânticos e trombetas, pela Avenida em fora. Na cauda, como representação do Futuro, condicionado pelo Passado e contido no Presente, grupos de crianças que, no descanso do préstito, faziam “roda” e cantavam candidamente:

Ciranda, cirandinha!

Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia volta, Volta e meia vamos dar!

O alto simbolismo filosófico e patriótico do préstito foi muito gabado pelas pessoas simpáticas à causa de Bentes, sobretudo pelo Diário Mercantil, que viu no fato um ressurgimento do sentimento republicano e nacional. Foi gratuito.

O Rio de Janeiro todo moveu-se para ver o préstito fúnebre; mas era curioso que muitos não o vissem compungidos e não encontrassem nada nele que lhes lembrasse a homenagem que pretendia prestar.

Inácio Costa, com o seu — “À bala” — apoiado em um dos estribos, do alto da sela, olhava com severidade patriótica para as moças que se espantavam com seu vestuário bicolor; e, só na altura do Catete, pode desfazer a carranca, quando cumprimentou sorridente Benevenuto, que via aquele desfile com um assombro de idiota chumbado no rosto.

Pelas bordas do préstito, alguns entusiastas e mais membros da sociedade distribuíam em retângulos de papel os seguintes versos:

AO ALMIRANTE CONSTÂNCIO Esta é a ditosa pátria minha amada

Camões. Canto III XXI

Oh! Pátria! Lugar em que nascemos.

Onde temos amor e amizades!

Escuta o nosso preito de saudades Daquele que faz que nos juntemos!

Nele as vontades portentosas

Dos fortes patriotas se juntaram

E com resplendor nele brilharam do passado as lembranças majestosas. Que o seu nome seja sempre santo Sob o lindo manto do cruzeiro.



(continua...)

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