Por Aluísio Azevedo (1895)
- Pois desmente-o, provando com a tua conduta o contrário do que ele disser. Olha! Queres ver o meio de chegar mais depressa a esse resultado? Procura trabalho. Emprega-te!
- Mas onde?
- Em casa do próprio pai da menina...
- Em casa do comendador? Tem graça.
- Não sei porque...
- Pois eu sirvo lá para o comércio!...
- Procura servir.
- Ele não tomaria a sério o meu pedido.
- Nesse caso a culpa já não seria tua; e o bom cumprimento do teu dever, procurando trabalho, seria já argumento que ficava de pé contra as intrigas do Aguiar.
- Tens razão. Amanhã mesmo vou falar ao velho; talvez consiga alguma coisa...
- Hás de conseguir, pelo menos, provar que desejas ganhar a vida.
Teobaldo ficou pasmado quando, no dia seguinte, às suas primeiras palavras com o pai de Branca, este disse sem o menor constrangimento:
- Ó meu caro senhor, por que não me falou há mais tempo?... Tenho muito prazer em serlhe útil; diga quais são as suas habilitações e pode ser que entremos em algum acordo.
Teobaldo viu-se deveras embaraçado para responder a semelhante pergunta. Ele, coitado, não tinha habilitações; tinha dotes, sentia-se com jeito para tudo em geral, mas imperfeito e inepto para qualquer especialidade.
O comendador foi em auxílio dele, perguntando-lhe se sabia o francês e o inglês.
- Perfeitamente, apressou-se a responder o interrogado. - Falo e escrevo com muita facilidade qualquer dessas línguas.
- Pois então trabalhará na correspondência. Tem boa letra?
- Sofrível; quer ver?
E, tomando a pena que o negociante havia deposto em cima da carteira, escreveu primorosamente sobre uma folha de papel as seguintes palavras:
"Convencido de que a ociosidade é a mãe de todos os vícios e de todos os males, desejo evitá-lo, dedicando-me a um trabalho honesto e proveitoso."
- Muito bem! disse o comendador, olhando por cima dos óculos para o que estava escrito. Pode amanhã mesmo apresentar-se aqui; meu guarda-livros se entenderá com o senhor. - Devo vir a que horas?
- Aí pelas sete da manhã.
Teobaldo correu a contar ao amigo o resultado da sua conferencia com o pai de Branca. - Então? Que te dizia eu?... exclamou Coruja, nadando em júbilo. Vês?! Tudo se pode arranjar por bons meios! Não dou muito tempo para que o comendador morra de amores por ti e esteja disposto a proteger-te mais do que protegeria a um próprio filho! Assim tenhas tu cabeça e saibas te agüentar no emprego!
- Vamos a ver.
– Olha, meu caro, ali tens um futuro, sabes? Talvez não ganhes muito ao princípio, mas pouco a pouco o comendador te aumentará o ordenado e, quando deres por ti, estarás com a tua vida independente e garantida. Então, sim, pede a menina e casa-te, antes disso - é asneira!
XX
O Aguiar, ao lhe constar a entrada de Teobaldo para o escritório do tio, esteve a perder os sentidos, tal foi o abalo que lhe produziu a notícia; mas, ordenando as suas idéias e meditando o fato, tocou logo para a casa de Leonília, disposto a por mão em todos os meios que lhe servissem de arma contra o rival.
- Aposto que não adivinhas o que aqui me traz!... principiou ele, assim que a cortesã lhe apareceu no patamar da escada.
- Saberei se mo disseres..
- É uma revelação de amigo...
- Uma revelação? Entra.
- Com licença.
E, assentando-se defronte dela:
- Ainda gostas muito de Teobaldo?
- Loucamente, por que?
- Sentirias muito se ele te abandonasse?
- Se me abandonasse? Mas que queres dizer? Há alguma novidade? ele tenciona sair do Rio? Anda! fala por uma vez!
- Não, não é isso...
- Então que é? Desembucha!
Aguiar estendeu as mãos uma contra a outra, em sinal de casamento e fez um trejeito com os olhos.
Casar? ele? exclamou Leonília empalidecendo repentinamente. - Ele vai casar?!
- Está tratando disso e é natural que a consiga se lhe não cortarem os planos.. . Só uma pessoa o poderia fazer e essa pessoa és tu.
- Eu?! disse ela, afetando indiferença. - Ora, que me importa a mim! Que se case quantas vezes quiser!
Mas puxou logo o lenço da algibeira, escondeu os olhos e atirou-se depois sobre o divã, soluçando aflita.
- Bom, bom! pensou o rapaz - com esta posso contar!...
E foi assentar-se ao lado da cortesã, para lhe expor o caso minuciosamente. Soprou-lhe em voz baixa o nome da noiva, o número da casa do tio, falou sobre este e sobre Mme. de Nangis e terminou dando parte do novo emprego de Teobaldo.
- Se aquele patife continuar mais algum tempo no escritório, segredou ele, estará tudo perdido! É preciso antes de mais nada arrancá-lo dali. Conheço-lhe as manhas, é capaz de enfiar um camelo pelo ouvido de uma agulha!... Trata de evitar o casamento e podes, além do resto, contar com uma boa recompensa de minha parte. Adeus.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.