Por Aluísio Azevedo (1897)
Apesar de me haver a senhora proibido falarlhe sobre qualquer assunto; apesar de ter confessado que me aborrece, eu não desisto das minhas esperanças, e venho ainda uma vez pedirlhe, de joelhos, que não acompanhe o G*** e siga comigo para onde melhor lhe parecer em toda e qualquer parte do mundo. Os recursos pecuniários para a viagem não faltarão, porque, como saberá, acabo de ser largamente premiado pela loteria. E estará à sua disposição, desde que a senhora assim o decrete com uma simples palavra.
Espero a sua resposta até depois de amanhã. — Melo Rosa".
— Esse "depois de amanhã" é hoje, disse Jorge, porque esta carta chegou anteontem.
Gabriel ficou pensativo, mas no íntimo sentiuse feliz com aquelas palavras; provavamlhe elas que a requestada repelia o Melo.
Entretanto, tudo era arranjado pela própria Ambrosina; foi ela quem imaginou a carta, quem a escreveu e quem a pôs ao alcance do cocheiro, calculando que este desconfiado como andava, a iria mostrar logo ao patrão, e o patrão ao enteado.
Gabriel resolveu ir dali mesmo à Praia do Russell.
— Olhe, Doutor, disselhe Jorge; pode vossemecê contar comigo para o que der e vier! Se for preciso que o velhaco do tal Melo não importune, é só mo dizer porque eu me encarrego de tudo!...
— Como assim?
— Descanse, que lhe não tocarei num cabelo! Apenas o que faço é afastálo durante o tempo necessário para tratar vossemecê de seus interesses. Depois... ele que esbraveje à vontade! Siga viagem o Doutor com a sua Do.... e o resto fica por minha conta!
Gabriel aprovou a idéia, e conversou demoradamente sobre ela com o cocheiro. Em seguida, foi ter com Ambrosina.
— Estimo que chegasse! exclamou a bela rapariga, a envolverlhe o corpo com os braços. Não imaginas o que vai por cá! Assentate, descansa um pouco, porque tenho cousas muito sérias a comunicarte...
Gabriel assentouse, em silêncio. Ambrosina chegou uma cadeira para junto da dele, e, com uma voz misteriosa e cheia de movimentos reservados, disselhe:
— Sabes que o Melo, desde aquele dia de loucuras lá em casa, persuadiuse de que o amo?...
O rapaz meneou afirmativamente a cabeça.
— Pois bem; meteuselhe em idéia que eu devia separarme de ti para viver com ele!... Aquela peste não se enxerga! Ora, tenho pena de haver perdido uma carta que me remeteu o traste! Guardavaa justamente para te mostrar... Não sei onde a pus! Estou doida de procurála! Entre outras banalidades, diz o tolo haver tirado um prêmio na loteria. Querer seduzirme com dinheiro!... A mim, que tu bem sabes quanto sou desinteressada! a mim, que te amaria da mesma forma, se fosses o mais pobre dos homens! Bem! Eu não dei um passo; nada quis resolver, sem falar contigo... Tu és o senhor de meus atos, e como tal, fica a teu arbítrio fazer o que entenderes!
— Não se fará cousa alguma. Já está tudo determinado. Precisamos é sair hoje mesmo daqui. Estamos com o aluguel de nossa casa pago até o fim do mês. Os trastes foram já vendidos, mas só serão arrecadados pelo dono depois da nossa partida.
— É verdade! lembrou a traiçoeira; na falta de outra casa, podemos ir para a de mamãe. Ela veio ontem visitarme, e pediume que fosse para lá.
— Não, não convém; pois se temos casa própria, para que ir para a dos outros? Além disso, precisamos tratar em plena liberdade de nossa viagem. O Gaspar vai hoje para Nova Friburgo e demorase alguns dias; amanhã já aí está o vapor, e nós partiremos.
— E se o Melo lembrarse de perseguirme lá em casa? Tu não sabes quem é aquele sujeito!
— Não te incomodes com o Melo! A respeito (dele estão tomadas todas as medidas.
— Lembrame uma cousa nesse caso. Levo a Laura para me fazer companhia até o momento do embarque.
— Bem; mas o que preciso saber é se tu és capaz de escreveres duas palavras ao Melo, convidandoo para ir amanhã lá à casa. Não te assustes, ninguém lhe fará mal!
— Para que é? indagou Ambrosina, rindo, a prever alguma boa partida.
— Já agora te digo tudo com franqueza: O Melo se for amanhã, será delicadamente agarrado e conduzido a um lugar confortável, onde não lhe faltará absolutamente nada, mas do qual só será posto em liberdade depois que tenhamos partido...
— Bravo! Magnífico! Ah! como o bobo não ficará furioso!
— Mas, escrevelhe o bilhetinho, não?
— Meu Deus! Quantos quiseres! Tu não pedes, mandas! Podemos escrevêlo imediatamente.
E, toda expedita e desembaraçada, foi buscar pena e papel.
— Estou às tuas ordens. Podes ditar... disse a finória, assentada já defronte do tinteiro.
— "Melo Rosa, ditou Gabriel. Está tudo arranjado. Amanhã às quatro horas da tarde, me encontrarás em casa, sozinha e pronta para fugir contigo. Fico à tua espera. Não faltes! — Ambrosina".
— Pronto! disse esta. Afiançote que ele irá.
— Bem! agora dáme esse bilhete.
— Aí o tens.
E Gabriel guardouo no bolso.
— A que horas queres que te venha buscar? perguntou ele.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.