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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

À noite, havia no convento uma solenidade a N. S. da Assunção, no altar da enfermaria; e Mont’Alverne, chegando para tomar parte nela, ainda um pouco cedo, começou a passear e a conversar num salão com o guardião, que era Frei Joaquim de São Jerônimo.

Passados apenas alguns minutos, entra no salão um devoto freqüentador do convento de S. Antônio, homem estimável, que tinha em grande apreço os bons pregadores, e que, por sinal, felizmente ainda hoje vive, e lembrar-se-á deste caso.

O bom devoto, logo que põe os olhos em Mont’Alverne corre para ele entusiasmado e exclama:

– Ah! padre-mestre. Que magnífico sermão pregou hoje vossa caridade! A admiração foi geral, e eu ainda me acho comovido e arrebatado.

Mont’Alverne estava, dentro de si, maldizendo do entusiasmo do seu admirador; e este, cada vez mais ardente e enlevado, relatou tudo quanto testemunhara.

O guardião, desatando a rir, voltou-se para Mont’Alverne e disse-lhe:

– Venha a dobra, padre-mestre. Venha a dobra.

E Mont’Alverne teve de pagá-la.

Frei Sampaio foi mais feliz do que Mont’Alverne.

Estava ele para pregar um sermão de angústia na igreja da Misericórdia, e dias antes, saindo da sua cela, viu o guardião, que era então um outro célebre pregador, Santa Leocádia, passeando triste como se estivesse contrariado.

– Que tem, padre-mestre? – perguntou Frei Sampaio.

– Ah! – disse Santa Leocádia. Não se pode mais ser preladonestas casas. Os frades não dão aos prelados se não desgostos e angústias.

– Deveras? – tornou Frei Sampaio, sorrindo.

– Ria-se, ria-se. Mas se fosse guardião, havia de entristecer-secomo eu e de viver sempre angustiado.

– Pois, padre-mestre, eu lhe juro que não se queixará de mimpor lhe dar o meu quinhão de angústias.

– Estou certo disso, padre-mestre. Estou certo e nunca penseio contrário – respondeu Santa Leocádia.

Três dias depois, foi Sampaio pregar o seu sermão e, de volta, recolheu-se à sua cela. Tinha, porém, apenas acabado de entrar quando lhe apareceu Santa Leocádia.

– A dobra, padre-mestre – disse o guardião.

– Que dobra? – perguntou Frei Sampaio, mostrando-se admiado.

– Ora! A dobra do sermão que pregou.

– Ah! padre-mestre guardião – disse Frei Sampaio. – De pagaressa dobra estou eu livre, porque preguei um sermão de angústias e há três dias lhe jurei, e vossa caridade recebeu meu juramento, que eu não lhe daria o meu quinhão de angústias.

O guardião pôs-se a rir, e Frei Sampaio não pagou a dobra.

Relevai-me estas ligeiras anedotas, que se referem a esses nossos grandes pregadores. E retirando-nos do salão dos guardiões rendamos justos louvores ao atual provincial dos franciscanos do Rio de Janeiro, porque foi ele que mandou fazer aqueles quatro retratos que perpetuam as imagens de tão eloqüentes e sábios oradores brasileiros.

A capela dos Três Corações, que em seguida passamos a visitar, tem o altar copiosamente enriquecido de relíquias e ossos de santos, que os provinciais, quando iam a Roma votar, em capítulo geral, traziam obtidos do papa. As paredes mostram-se ornadas com diversos bustos de santos, cada um dos quais apresenta um relicário ao peito. O teto é pintado a óleo e é aí notável um quadro do mistério da Trindade.

Além das salas e da capela que temos estudado, constava ainda o primeiro andar do convento de S. Antônio de numerosas celas que outrora não eram de sobra, porque então abundavam os religiosos, e que, nestes últimos tempos, tão desabitadas ficaram que uma parte delas foi cedida para o Arquivo Público, que desde 1854 se acha ali estabelecido, tendo-se rasgado muitas celas, que se transformaram em salas, dispostas convenientemente para o serviço desta utilíssima instituição.

O Arquivo Público absorveu as antigas acomodações da secretaria e consistório do convento, que eram no primeiro andar e que, em conseqüência dessa patriótica hospedagem, o atual provincial fez mudar para o segundo, como teremos de ver.

A necessidade de prover com os arranjos precisos o Arquivo Público, ia sendo causa de desaparecer, como desapareceram muitas outras, a cela que fora habitada pelo Padre-Mestre Frei Francisco de Santa Teresa Sampaio.

A situação em que se achava esta cela a condenava ao doloroso sacrifício. O digno provincial, porém, Frei Antônio do Coração de Maria Almeida, que por algum tempo a tinha também ocupado, desde 1844, salvou-a desse grande perigo e dela conserva a chave bem como das que pertenceram a São Carlos e Mont’Alverne.

A cela que foi habitada por Frei Sampaio está situada junto de um salão que corre por cima da sacristia para o jardim, da qual olham as suas janelas de grades de ferro.

A cela de Frei Sampaio é histórica e cheia de importantes e curiosas recordações.

(continua...)

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