Por José de Alencar (1872)
Lembrou-se o advogado da inquirição; mas tinha meia hora e o recurso do tílburi. Condescendeu, pois, tanto mais que seria pouco delicado deixar ali só no meio da rua a mulher do banqueiro, sem a filha que desaparecera, e o pajem que ainda grazinava com o conheiro.
- Com muito prazer, minha senhora, ainda que não me posso demorar muito.
- É um instante!
Entraram na Rua do Ouvidor, onde Guida os esperava.
- Há tanto tempo que o senhor não aparece, Sr. doutor; está mal conosco?
- As minhas ocupações, D. Paulina, não me permitem.
- O Sr. Dr. Nunes trabalha muito, mamãe! observou Guida voltando-se.
- Seu amigo gosta mais de se divertir. Como vai ele?... Ah! aqui estão as camisas.
E D. Paulina mostrou a Ricardo a vidraça do “Notre Dame”, onde se viam as caixas de camisas francesas com toda a sorte de punhos e colarinhos.
A casa da “Notre Dame” é uma espécie de secretaria da moda fluminense; há naquele ministério do luxo diversas seções, e diretorias, melhor regidas talvez do que a dos correios, dos telégrafos, e outras.
D. Paulina e Ricardo entraram na sala da roupa branca, lingerie; e apesar da condescendência do advogado, disposto a conformar-se plenamente com a escolha de D. Paulina, para mais depressa libertar-se, um quarto de hora foi consumido no cotejo, nas indecisões, e mil rodeios, com que as senhoras costumam deliberar em conselho de estado pleno sobre a magna questão da compra de uma fita, por exemplo.
Durante esse tempo, Guida na próxima repartição, a das sedas, soierie, fazia desmoronar-se, a um aceno da ponteira de seu chapelinho de sol, as rimas de caixas e pacotes, que atopetavam os armários.
Tinha prazer em ver se desdobrarem assim aquelas ondas de seda e veludo; em contemplar as galas da moda, examinar as mais esplêndidas seduções do luxo, e sentir-se calma e indiferente.
- Não me agrada!
Esse dito desdenhoso, o repetia ela de cada vez que afeitavam-lhe diante dos olhos um corte de nobreza rutilando aos toques da luz, os nimbos da tarlatana orvalhados de pingos de cristal, ou os flocos da gaze de Chambery flutuando como nuvens d’ouro.
Debalde os caixeiros excediam-se na lábia francesa, com a qual não compete nem o puff inglês, nem o humbug americano.
Foi impossível excitar na moça a cobiça por qualquer das últimas novidades e fantasias da moda.
- Quero comprar alguma coisa, para não dar-lhes trabalho à-toa.
Nesse momento aproximaram-se D. Paulina, e Ricardo que vinha despedir-se.
- Já vai? perguntou a moça com indiferença.
- Se me permite!... Devo achar-me às onze horas na Relação.
- Ah! O senhor já sabe? acudiu a moça pondo-se a contraluz de um rico vestido de gorgorão para ver-lhe o efeito: o visconde da Aljuba não freqüenta mais a nossa casa. Qual acha mais bonito, o azul ou o verde?... Este?... É também o meu gosto.
Voltou-se para o caixeiro:
- Mande-me este a Comaitá. Depois tornou a Ricardo:
- Como algumas pessoas não gostavam de encontrar-se com ele... por isso lhe previno.
- Eu nunca lhe dei atenção.
- Ah! pensei.
- É verdade, acudiu D. Paulina. O senhor há de jantar conosco Sábado. Não falte; promete?
- Terei esse prazer, disse Ricardo.
- Mas olhe que é segredo.
- Ah! é um banquete político?
- É uma conspiração, observou Guida.
Saindo de “Notre Dame”, não viu Ricardo duas pessoas recostadas no guarda-vidraças de metal dourado.
Eram o visconde da Aljuba e o Dr. Nogueira, que enfiando os olhos pela vidraça, acompanhavam os movimentos da Guida, fazendo a propósito algumas observações.
- O farsola é capaz de lograr-nos! dizia o visconde designando Ricardo.
- Já lhe tomei o pulso, respondeu o Nogueira com a peculiar jactância: está muito calouro ainda!
- E a sua candidatura, como vai? É uma coisa que havia de ajudá-lo muito.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.