Por José de Alencar (1875)
Na volta da montearia, o Fragoso obteria sob qualquer pretêsto uma audiência do capitão-mór e lhe faria o seu pedido, desculpando-se do lugar, com as razões que levaria preparadas. Se a resposta fosse favorável, estava tudo resolvido pelo melhor; no caso de uma negativa, o Onofre receberia o aviso por um sinal convencionado. Então ao passar D. Flor, que pelas cautelas tomadas se acharia separada do resto da comitiva e sobretudo da escolta, o bandeirista arrebataria a donzela e partiria com ela para o Bargado, seguido por Marcos Fragoso.
A intenção do Fragoso era casar-se imediatamente com D. Flor, para o que já tinha no Bargado um padre que mandara vir de Inhamuns com a escolta e que só alí chegara na noite antecedente, por ter-se demorado em caminho com uma sdesobrigas que pingaram sempre umas pratinhas.
Assim, quando o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo dispunha-se a, em qualquer dia, mandar recado ao dono do Bargado e anunciar-lhe o alvitre que tomara de casá-lo com sua filha, Marcos Fragoso preparava-se para raptar a donzela que já lhe estava àquela hora destinada.
Nessa resolução partira êle para a montearia, e bem o demonstrara na conversa com seu primo Ourém.
Todavia absteve-se de comunicar-lhe o plano, e buscou desvanecer suspeitas suscitadas por suas alusões e ambiguidades. Além de não saber que pensaria o outro do projeto, não contava com a sua calma e dissimulação para guardar o segrêdo e não aventar desconfianças.
Fôra nestas disposições que sobreviera o incidente de Arnaldo. O seu gênio impetuoso, por muitos dias sofreado, prorrompera naquela explosão de ira, em que vazou todas as cóleras e irritações acumuladas desde a sua vinda a Quixeramobim.
Mas deixâmo-lo na touceira junto das carnaúbas, concentrado e a refletir.
O resultado dessas reflexões foi o que se devia esperar de um homem tão violentamente apaixonado como êle. Em poucas horas ia decidir da sorte de seu amor; de uma ou de outra forma, D. Flor lhe pertencia.
Devia por um arrebatamento imprudente comprometer sua felicidade, e frustrar a ocasião que nunca mais se apresentaria? Seria uma insensatez.
Chamou pois a si toda a energia da contade, para impor a seu temperamento a calma precisa: compôs o traje, cujo desarranjo podia denunciar a perturbação interior do espírito e cuidou em reunir-se aos companheiros.
Seu cavalo andava alí perto na várzea, aparando as pontas do capim mimoso; foi-lhe fácil apanhá-lo.
A pequena distância andada, acistou os outros vaqueiros que por prazer, andavam a montear o gado barbatão. Encaminhou-se para quele ponto.
Veio-lhe ao encontro o Ourém.
— Ora ressuscitou o primo Fragoso! Já pensávamos que o El-dourado tinha-lhe pegado o encanto e que andava por aí também, não em figura de touro, a-pesar-de que Júpiter não se deshonrou de o ser para carregar às costas a bela Europa; mas na figura de um daqueles gentís amorinhos que andam a beijar as flores. E como a flor das flores ainda não encontrou um bem atrevido para beliscar-lhes as faces, era bem presumível que o primo à semelhança do Cisne de Leda se disfarçasse no passarinho.
— Pois aquí me tem no meu próprio original de carne e osso, primo Ourém; e como destas corridas de touros não se tira outro proveito senão uma dome de caçador, vou saber em que altura anda o almôço, pois já passam das horas.
— Não serei eu que o demore nessa pia intenção; pois se o primo com o coração cheio sente as badaladas do estômago, imagine o que será de mim, que já me sinto todo um vácuo.
O Fragoso continuou o seu caminho. Ao passar por uma árvore viu os luzidos festões de uma trepadeira que descia dos galhos em bambolins de verde folhagem, recamada das mais belas flores purpúreas, quais pingentes de rubís.
O moço capitão colheu um ramalhete dessas lindas flores que no sertão chamam bilros; e dirigiu-se para a colina onde estavam as senhoras. O capitão-mór que o viu passar, gritou-lhe de longe com a sua voz de trovão, fazendo ribombar desapiedadamente aquele seu grosso riso de mofa:
— Então, sr. capitão Fragoso, que novas dá-nos do Dourado? Já esfolou o boi de fama, e traz aí as solas das chinelas? Olhe que o prometido é devido. Quando quiser, o mamote está à sua disposição.
A-pesar-do ânimo resoluto em que vinha, careceu o Fragoso de muito domínio sôbre si, para recalcar a violência de seu despeito e responder com ar prazenteiro:
— A nova que trago, sr. capitão-mór, é que não nascí para o ofício de vaqueiro, mas para o ter ao meu serviço. Foi isto que me ensinou o Dourado; e achando eu que tinha muita razão, deixeio ir descansado e prometi-lhe mandar o José Bernardo entender-se com êle.
— Não é preciso, oboi não tarda aí. O Arnaldo já o derrubou comc erteza, retorquiu o capitão-mór.
— Melhor; fez sua obrigação.
Marcos Fragoso aproximou-se então de D. Genoveva:
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.