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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gira em tuas veias, e o meu coração de moço que fala pelos teus lábios. Deixa porém que os cinqüenta anos de experiência que desde então passaram sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade à velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma família. 

— Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dor e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado. O fidalgo prosseguiu já calmo: 

— Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a vitória, fosse ela valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado. 

— Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus. 

— E é por esse nobre mas estéril orgulho que quereis sacrificar o único meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realizarem? 

— Que dizeis, senhor? 

— Qualquer que seja a força e o número dos inimigos, conto que o valor português e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhe por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mês; mas por fim teremos de sucumbir. 

— Então?... exclamou D. Diogo pálido. 

— Então se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portugueses não lhe recusarão decerto, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua família. Então verá que esta glória de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inútil. D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do fidalgo: 

— Perdão, meu pai, por não vos ter compreendido. Eu devia adivinhar que D. Antônio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é digno do pai. 

— Vamos, D. Diogo, não há tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um minuto de tardança talvez tenha de ser contado ansiosamente por aqueles que vão esperar-vos. 

— Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se à porta. 

— Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa família. Ide despedir-vos de vossa mãe, e vossas irmãs; eu farei tudo preparar para a partida. 

O fidalgo, reprimindo a sua emoção, saiu do gabinete onde se passava esta cena, e foi ter com Álvaro que o procurava. 

— Álvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de Janeiro. 

— D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado. 

— Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo esteja pronto dentro de uma hora. 

Álvaro dirigiu-se imediatamente ao fundo da casa onde habitavam os aventureiros. 

Havia ai grande agitação; uns falavam em tom de queixa, outros murmuravam apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente riam e motejavam do descontentamento de seus companheiros. 

Aires Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia dois tons; mas à medida que ele se afastava, cada um dava livre desabafo ao seu mau humor. 

Entre os mais inquietos e turbulentos distinguiam-se três grupos presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Rui Soeiro e Bento Simões. 

A causa desse descontentamento quase geral era a seguinte: 

Por volta de seis horas da manhã, Rui, em virtude do emprazamento da véspera, dirigiu-se o primeiro à escada para ganhar o mato. 

Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver aí Vasco Afonso e Martim Vaz de vigia, o que era extraordinário, pois só à noite se usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia. 

Ainda mais admirado porém ficou quando os dois aventureiros cruzando as espadas, proferiram quase ao mesmo tempo estas palavras: 

— Não se passa. 

— E por que razão? 

— É a ordem, respondeu Martim Vaz. 

Rui empalideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéia que lhe acudiu foi que os tinham denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano. 

Aires Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigiu-se com ele para o terreiro: ai o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão à boca em forma de buzina, gritou.

— Olá! À frente toda a banda! 

(continua...)

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