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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Eu lho disse, senhora.

– E ele?

– Não quis crer-me.

– Sim! sim! e tinha razão; exclamou por entre lágrimas a “Bela Órfã”; tinha muita razão!... quem poderia suspeitar que minha tia levantasse contra mim uma tão grande calúnia?! que quer dizer isto, meu Deus?... que mal tenho eu feito?... que significa esta intriga?... oh! e que juízo estará fazendo de mim esse nobre moço?

como não terá ele amaldiçoado a hora em que pela primeira vez me viu?!

– Não, tornou o velho; ele não há de amaldiçoá-la nunca.

– Minha cabeça arde, disse a moça sem atender ao guarda-portão: eu me perco... eu não sei o que faça; mas é terrível que eu deixe assim vingar uma intriga... uma calúnia que me desdoura!... não, não é possível.

E voltando-se para o velho tomou-lhe uma das mãos, e apertando-a prosseguiu:

– Sr. Rodrigues, eu devo-lhe amizade; sei que me estima; não consinta pois que tão injustamente estejam talvez praguejando contra mim. Eu sou uma pobre criança... devo fazer loucuras... mas nunca me lembrei de dizer o que disseram que eu disse. Vá, escute; se não julga haver nisso inconveniente, vá ter com esse moço, e diga-lhe da minha parte...

A virgem parou subitamente... cobriu-se-lhe o rosto de uma cor rubra, e ela estremeceu...

– Dizer-lhe o quê?... perguntou o velho.

– Nada! não lhe diga nada! tornou a “Bela Órfã” com tristeza profunda.

O guarda-portão ficou olhando admirado para Celina.

– Desculpe-me, disse depois a moça: uma calúnia deve ter bastante força para exaltar sua vítima, como eu há pouco me exaltei.

– E aquele pobre moço?...

– Saberá um dia a verdade, no entanto não posso esquecer-me do que devo à minha educação. Uma coisa só tenho direito de fazer..

– O quê?...

– Queixar-me-ei a meu avô, mesmo na presença de minha tia.

O rosto de Celina tinha tomado um tal aspecto de nobreza, sua voz um timbre tão forte, o seu olhar tanto fogo, que o velho Rodrigues esteve durante muito tempo olhando para ela sem dizer palavra

– Perdoe-me, senhora, disse ele enfim; mas eu creio que não vai bem pelo caminho que pretende seguir.

– Por quê?... perguntou ela com voz firme.

– Porque, se há intriga como supõe, é um erro expor-se a ela com essa franqueza que a caracteriza. Os que intrigam trabalham sob o manto da noite, e para triunfar deles não basta a inocência, é necessária também a prudência. Senhora, não diga coisa alguma a seu avô, nem se atraiçoe diante de sua tia.

– Que devo pois fazer?... perguntou a moça olhando admirada para o velho.

– Guardar silêncio, respondeu este.

– Silêncio?... e até quando?...

– Eu lho direi. No entanto anime-se com a certeza de que tem amigos que velam por ele... pela senhora...

E o velho acrescentou com voz insinuante:

– E que velam sobretudo pelo seu amor.

– Senhor...

– É inútil fingir comigo... eu sei tudo.

A moça cobriu o rosto com as mãos, envergonhada e sentida.

E o velho deixou a sala, cantarolando por entre os dentes o romance “Sonho da Virgem”:

“Era um dia um mancebo, que ardente...”

CAPÍTULO XXV

A SÚBITA e imprevista retirada de Cândido naquela fatal noite de anos, tinha sido um novo golpe para o coração do velho pai de Mariana.

Anacleto vira sair da sala sua filha pelo braço do mancebo, apanhara um raio de cólera dardejado contra ambos pelos olhos de Salustiano, e combinando estas observações com o desaparecimento de Cândido, parecia-lhe que sua filha, cedendo à inexplicável influência daquele, tinha uma parte qualquer no triste acontecimento.

Muito ocupado com os desgostos e temores que lhe causava Mariana, deixou passar a noite e os dois dias que lhe seguiram, sem desafiar explicação alguma.

Depois do primeiro serão, que teve lugar, passada a noite de anos, um novo pensamento encheu a alma daquele bom pai, que não teve mais tempo de lembrar-se de Cândido.

Henrique viera pedir-lhe formalmente a mão de Mariana. O casamento ficara ajustado, e com geral assentimento determinou-se que se efetuaria antes de um mês.

Na noite do seguinte serão, Anacleto apresentou os noivos a seus amigos; e então lembrou-se outra vez que faltava na sala alguém a quem votava estima leal e bem merecida.

No outro dia chamou Mariana a seu quarto, e interrogou-a seriamente sobre a ausência de Cândido.

A viúva contava que mais cedo ou mais tarde se trataria disso no “Céu cor-derosa”, e tinha-se preparado para não atraiçoar-se deixando entrever a verdade.

Respondeu a seu pai com segurança e calma. Ela não sabia nada que pudesse ter relação com esse fato; sentia mesmo muito que um moço tão recomendável assim se tivesse retirado do “Céu cor-de-rosa”.

(continua...)

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