Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Não, mãe Sara: a Sr.ª D. Raquel não entrava na conta; nós não podemos esconder nada dela.
— Então, de que se trata? perguntou Raquel.
— Fala tu, Miguel, já que começaste.
— Falo, sim, senhora, tornou Miguel: pelo sim pelo não, é bom que a senhora saiba; pois se acontecer alguma desgraça...
— Fala... anda.
— Foi o caso que ontem pela volta das onze da noite tinha eu chegado por acaso à janela, quando vi aproximar-se vagarosamente, e apoiando-se pelas paredes, um moço, coitado, todo molhado, e o que é mais, coberto de sangue.
— Meu Deus! e que é feito dele?...
— Pediu-me com voz desfalecida que o socorresse... que o ajudasse a caminhar... ora, eu não tenho coração para ver estas coisas; chamei mãe Sara, e compadecidos todos lhe oferecemos a minha cama...
— E ele, e ele?...
— Arrumou os pés à parede, e não quis aceitar senão depois que lhe prometemos nada dizer a seu respeito, a quem quer que fosse... enfim, entrou: pobre moço! tinha a cabeça quebrada; não consentiu, porém, por modo algum que se chamasse médico; fez-me amarrar-lhe a cabeça com panos; mãe Sara pôs-lhe um remédio na ferida, e ele dormiu toda a noite; mas ainda não se pode levantar. — E agora?...
— Há duas horas que dorme.
— Minha boa avó, disse Raquel com voz muito trêmula, ele dorme... deixe que eu veja esse moço... só da porta... de longe...
— Minha filha, posso eu dizer-lhe que não?... mas Deus sabe que não fui eu quem faltou à promessa.
Raquel deixou Sara, e, acompanhada de Miguel, dirigiu-se por um corredor escuro e longo, no fim do qual este lhe apontou um quartinho, cuja porta estava apenas cerrada.
Raquel fez sinal a Miguel para que observasse se o moço dormia; e, só depois de certificada disso, ela passou mansamente metade de seu esbelto corpo para dentro do quarto e viu... era ele mesmo!
Uma fraca luz ardia junto à sua cabeceira, e, à mercê de seu triste clarão, ela viu o rosto pálido e abatido do jovem ferido... alguns anéis de seus cabelos saíam por debaixo do lenço, em que tinha envolvida a cabeça... seus olhos estavam fechados; mas, ainda dormindo, parecia tão meigo como na noite do sarau.
Raquel contemplou enlevada a figura do moço adormecido; depois, como arrependida de algum terno pensamento, que talvez lhe surgisse na alma, retirou-se rapidamente da porta do quarto, e, levando a Miguel para outro, que defronte ficava, disse:
— Miguel, és capaz de ir agora mesmo a Niterói?
— Ao fim do mundo para lhe servir, senhora.
— Pois vai: procura entre S. Domingos e a Praia Grande a casa em que mora o Sr. Hugo de Mendonça... está situada a poucas braças do mar; dize que vais da minha parte falar à sua filha: e a ela só, Miguel, ou a uma mulher já idosa, que se chama Lúcia, entrega a carta que vou escrever, que não deverá ser lida senão por ela... por ela só, entendes?...
— Perfeitamente; pode contar que tudo está feito.
— Dá-me papel e tinta.
Raquel ficou só no quarto e escrevia a Honorina; quando já tinha terminado e dobrado a carta, Miguel a veio chamar da parte de Jorge, que acabava de chegar; foram então ambos para a sala; alguns momentos depois, porém, a moça, tendo obtido de seu pai licença para mandar, como dizia, buscar notícias de Honorina, voltou, selou a sua carta, e, pondo-lhe o sobrescrito, ao mesmo tempo que com seu pai se retirava, Miguel partia para Niterói.
Raquel, mandando lisonjeiras notícias do moço loiro à sua rival e amiga, castigava sua alma pelo amoroso pensamento que há pouco tinha concebido, ao observar o jovem adormecido. No fim de três horas Honorina lia a carta de Raquel. Miguel havia desempenhado sua comissão como melhor pôde, confiando a carta a Lúcia.
Honorina beijou mil vezes aquelas letras, que, por serem vindas da mão da sua melhor ou talvez única amiga, livravam-na além disso de metade de seus cuidados; tendo finalmente de guardar a carta, viu, ao fechá-la, surpreendida a princípio, e logo depois toda prazer e ardor, que haviam, no verso da página escrita, algumas linhas que lhe tinham escapado, que não eram da mão de Raquel, e que diziam assim:
“Honorina, eu te amo! eu amo, com esse amor de poeta, como esse amor de fogo, que, ainda quando acaba na desgraça e na morte, contanto que seja sempre o mesmo amor, é por força bem belo!...”
— Oh!... exclamou Honorina levantando as mãos para o céu, quanto devo eu à amizade da minha Raquel!...
Mas, no meio de seu prazer imenso, a moça tornou-se subitamente melancólica e pensativa, como se uma lembrança amarga tivesse vindo avivar-se-lhe no espírito.
Há no mundo um sentimento encantador e meigo como o primeiro sorrir de um filhinho, puro e benigno como o orvalho da aurora, inocente e casto como o amor nascente de uma virgem; é a amizade de duas moças.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.