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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Não me demorei muito. Passavam alguns minutos das sete, quando a entreguei a Leporace e fui ter com Loberant.

— Acabaste? Vamos jantar, disse ele.

Desse dia em diante as dificuldades desapareceram. A redação toda me encheu de consideração e a minha intimidade com o doutor Loberant aumentou. Eu mesmo, até então reservado e tímido, comecei a animar-me, a ensaiar um dito, a externar uma opinião. Um belo dia ousei até escrever; fiz um artigo. Comecei a ter inimigos. Leporace, em quem sempre encontrei a mais completa má vontade, redobrou; Caxias criticou-me o andar e meteu-me nas intrigas da redação. O artigo, porém, saiu com as emendas de Leporace e as escoras gramaticais do Lobo. Não havia nele nenhum defeito de monta, mas a autoridade de Leporace ficaria abalada se não tivesse o que emendar em um artigo de novato.

Com o andar dos tempos aprendi os processos, fiz-me exímio e quase tão fecundo como o Deodoro Ramalho. Aprendi com o Losque a servir me dos outros jornais, a receber inspirações neles, a calcar os meus artigos nos que estampavam. Como Losque, norteei-me para as revistas obscuras, essas que ninguém lê nem os jornais dão notícia. Havia nelas uma pequena idéia, desenvolvia-a, enxertava umas considerações quaisquer. Não foi Losque quem me ensinou, foi a minha sagacidade que descobriu e tirou, da descoberta, os ensinamentos proveitosos. Quando deixava na mesa a sua biblioteca ambulante, eu corria um e outro jornal e cotejava os seus artigos, as suas pilhérias, com o que encontrava nos jornais que sobraçava sempre. Ele não lia senão jornais. Aprendia Finanças, Economia Política Estatística nos periódicos de França, de Portugal e da Argentina; neles, colhia citações de autores célebres, poetas, filósofos e sociólogos.

Leporace ainda lia alguma coisa, e lembrava-se de alguns livros que lera em estudante. Tendo morrido um rei qualquer, escreveu um artigo — “Dor da rainha viúva”— em que demarcava uma passagem de Daudet.

Os senhores lembram-se daquela passagem dos Reis no Exílio em que Colette de Rosen, cavalgando ao lado da rainha Frederica, atira-lhe indiretas referentes ao seu silêncio em face das infidelidades do marido? Lembram-se que a rainha, sentindo o golpe, responde à dama de honor que as rainhas não podem ser desgraçadas ou felizes como qualquer outra mulher. Precisam ocultar todas as suas dores e alegrias em virtude da majestade de sua grandeza. Pois bem. Leporace não teve dúvidas; agarrou a frase do diálogo e desenvolveu-a no seu estilo barroco, por quase uma coluna, do seguiste modo:

“Ela (a rainha) é bem a representação viva da mágoa, não a mágoa que nós outros sentimos, mas a mágoa injusta, a mágoa única, como que preparada pela adversidade também injusta e cega para determinadas almas que as circunstâncias do nascimento, e somente elas, fazem distintas das outras almas para não terem o direito de chorar”.

“As lágrimas da realeza são assim mais dolorosas e mais acabrunhadoras, porque os olhos reais as devem ocultar à luz em que todas as mágoas resplandecem com a grandeza do sofrimento, em virtude de sua própria majestade real.”

E por aí foi disfarçando a frase breve e rápida do romancista francês.

No jornal, compreende-se o escrever de modo diverso do que se entende literariamente. Não é um pensamento, uma emoção, um sentimento que se comunica aos outros pelo escritor; não é o pensamento, a emoção e o sentimento que ditam a extensão do que se escreve. No jornal, a extensão é tudo e avalia-se a importância do escrito pelo tamanho; a questão não é comunicar pensamentos, é convencer o público com repetições inúteis e impressioná-lo com o desenvolvimento do artigo. Para se dar extensão aos artigos lança-se mão de todos os recursos. Acumulam-se incidentes e aprestos, organizam-se considerações, empregam-se velhas pilhérias. La Rochefoucauld não teria talento se fosse redator de um jornal e no O Globo seria menos considerado que o Lemos, cuja reputação aumentou com o famoso crime de Santa Cruz.

Agora escrevia com independência e autonomia as suas noticias. Punha nelas toda a sua ignorância com muita liberdade, fazendo até alusões históricas. Nos arredores da cidade, certa ocasião, um marido cioso, tendo encontrado a mulher em flagrante adultério, amarrou-lhe o cúmplice à cauda de um cavalo, que o arrastou pela estrada.

Lemos, que certamente não lera o Tácito nem o Berquó, interpretou tal coisa como sendo suplício semelhante ao imposto à sua mãe por Nero e escreveu, aludindo ao castigo:

— Bem. Agora eu sou o Nero. Tu não és minha mãe, mas vais para a cauda do cavalo.

(continua...)

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