Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não o conhecia nesse tempo: andava iludido; só hoje sei a bisca que ali está.
E contou a respeito de Teobaldo todas as verdades que sabia e mais ainda o que lhe pareceu necessário para as realçar; assim, disse que ele era um grande devasso e um grande hipócrita; que ele para conseguir qualquer desiderato não hesitava defronte de obstáculos, nem considerações de espécie alguma, e que, no caso presente, se o comendador não tratasse de defender a filha, o patife conseguiria apoderar-se dela, pois já lhe havia captado a confiança e talvez o coração.
- Estás sonhando com certeza!
- Não! digo a verdade. Branca deseja casar com ele!
- Não creio! Isso não pode ter fundamento!
- Juro-lhe que tem! Ela própria mo confessou!
- Nesse caso vou interrogá-la.
- Pois interrogue, e verá!
Branca respondeu ao pai com toda a franqueza que - Se tivesse de escolher noivo preferia o Sr. Teobaldo a qualquer outro...
- Bem, filha, isso é lá uma questão de gosto; não se argumenta! mas, sempre te direi que é de minha obrigação evitar que dês um passo mau; preciso esclarecer-te sobre os precedentes e sobre o caráter desse moço, a quem na tua inocência escolheste para marido.
- Oh! mas foi vossemecê justamente quem me deu o exemplo de gostar dele!. .. Não posso compreender como um rapaz, até aqui tão querido e simpatizado por todos nesta casa, mereça o que meu pai acaba de dizer
- Sim, minha filha, mas o casamento é coisa muito séria; pode a gente simpatizar com uma pessoa, achar que ela tem talento, que é bonita, que é engraçada; sim, senhor! Daí, porém, a querer mete-la na família vai uma distância enorme!...
- Não sei que possa faltar Aquele rapaz para ter direito à minha mão!... - Não se trata do que falta, meu bem, mas do que lhe sobra!...
- Como assim?
- É que há feios boatos a respeito da vida que ele tem levado aqui na corte..
- Intrigas de meu primo...
- Eu, pelo menos, preciso tomar certas informações antes de consentir que penses nele.- Ora, papai, isso de pensar ou de não pensar em alguém não depende da vontade; e, quase sempre, quanto mais a gente faz em não pensar em uma pessoa ou em uma coisa, é quando mais ela não lhe sai da idéia.
- Bem, bem, bem! disse o velho afastando-se contrariado; mais tarde havemos de falar neste assunto; por ora não tens a cabeça no seu lugar.
Toda esta conversa foi a noite desse mesmo dia relatada minuciosamente a Teobaldo por Branca, que se encontrou com ele em casa de uma família conhecida de ambos. - Estás disposta a casar comigo? perguntou-lhe o rapaz.
- Bem sabes que sim.
- Mesmo sem a autorização de teu pai?
- Sim, mas exijo que lhe faças o pedido.
- E se ele negar!
- Insistiremos.
- E se ele insistir também na recusa?
- Esperaremos.
- E se ele nunca mudar de idéia?
- Não sei... Havemos de ver...
- E se ele quiser casar-te à força com teu primo?
- Oh! isso não consinto.
- Pois fica sabendo que é essa a sua intenção!
- Não creio!
- E, se for, estás disposta a reagir?
- Estou.
- E sabes qual é o único meio que há para isso?
- Qual é?
- Fugindo.
Branca teve um sobressalto e repetiu quase que mentalmente:
- Fugindo?...
- Sim, e desde já preciso saber se devo ou não contar contigo; nestes casos não há meias medidas a tomar: se estás disposta a ser minha esposa, arrostaremos tudo; se não estás, desaparecerei para sempre de teus olhos. Decide!
- Sim, mas tu hás de falar primeiro a papai...
- Está claro e só me servirei do rapto no caso que este me recuse a tua mão.- Talvez não recuse.
- E se recusar?
Ela abaixou os olhos.
- Responde! disse ele.
- Irei para onde me levares...
- Bem. Estamos entendidos.
E Teobaldo afastou-se disfarçadamente.
Quando tornou a casa, foi direito ao Coruja, a quem por último confiava as suas esperanças de casamento, e disse-lhe sem mais preâmbulos:
- Sabes?! O Aguiar está me fazendo uma guerra terrível! intrigou-me com o comendador! Creio que vou ter muito vento contrário pela proa! Ah! mas comigo aquele miserável perde o seu tempo porque estou resolvido a raptar a menina!
- Não sei se farás bem com isso... observou o outro; esses meios violentos provam quase sempre muito mal... Eu, no teu caso, me entenderia com o pai.
- Ah! está bem visto que lhe farei o pedido! faço, que dúvida! mas já sei que vou levar um formidável "não" pelas ventas! O bruto nega-ma com certeza!.
- Quem sabe lá, homem! Experimenta...
- Pois se o demônio do Aguiar não faz senão desmoralizar-me aos olhos do velho !.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.