Por Aluísio Azevedo (1897)
Laura batia palmas de contente. Uma viagem misteriosa era todo o seu ideal. Não era aquele precisamente o rapto com que ela sonhava, mas em todo caso era um rapto.
— Bom, disse Ambrosina. Temos ainda o que fazer para levarmos a efeito o nosso belo projeto... Dáme papel e pena.
Laura obedeceu.
Ambrosina passouse para uma mesinha ao canto do quarto. E aí sentada, na meditativa posição de quem se concentra numa complicada idéia, embebeu a pena na tinta, olhou atentamente para a brancura do papel e, afinal, escreveu o seguinte:
"Melo Rosa,
Já falei ao Gabriel, e ele está pela viagem; apareceme para tratarmos do que tínhamos combinado. Se puderes vir hoje mesmo, será melhor. Eu estou na casa de Jorge, cocheiro do Gaspar. Já sabes onde é. Amote! Vem".
A assinatura era um rabisco.
— Mas o que queres fazer com essa carta?... perguntou Laura.
Aí é que a cousa tem dente de coelho! disse Ambrosina, piscando um olho.
Laura abriu muito os dela, e sacudiu os ombros.
— Descansa, que eu sei o que estou fazendo... acrescentou a outra, terminando o sobrescrito.
E tratou de remeter a carta ao seu destino.
XXVIII
DIABÓLICA ESTRATÉGIA
As palavras do Médico Misterioso a respeito de Laura traziam ultimamente o pai desta em constante preocupação.
Por que seria que o Dr. Gaspar tanto receava da convivência de D. Ambrosina... matutava o bom homem. Está claro que ela não era nenhum favo de inocência, mas também não seria tão malvada, que só por gosto, lhe fosse agora perder a filha. Em todo o caso, convinha estar de alcatéia, porque lá dizia o outro: "Mais vale prevenido no mar, que desprevenido em terra!"
Ora, D. Ambrosina, considerava ainda o cocheiro; o defeito que tinha era ser um tanto doida; por mau coração não havia que lhe dizer, coitada! que ele sabia de atos de caridade praticados por ela. Lá o fato de acharse unida ao Gabriel, isso nada punha, porque a moça afinal precisava do auxílio de algum homem... E por que razão se achava ela hospedada ao lado de Laura? Seria por cálculo ou por maldade?... Não decerto; era puramente à força de circunstâncias.
E Jorge concluía com esta frase:
— Aquela, mais dia menos dia, é vítima do demônio do doido!
Quando lhe constou a visita de Gabriel, o homem ficou mais tranqüilo, na esperança de vêlos brevemente juntos e longe da pequena. Resolveu deixar que as cousas Corressem por si. Que pressa havia agora em afastar a pobre de Cristo, se o seu moço já se havia entendido com ela, e em breve a levaria consigo? Quanto à burla da gravidez, ele nada sabia.
A visita do Melo Rosa efetuouse no mesmo dia em que Ambrosina lhe escrevera. Haviam os dois muito antes combinado o plano de larapiar de Gabriel uma boa quantia, fugindo ambos em seguida. O amante traído pagaria à sua custa os meios da traição.
Mas o cocheiro, que andava de orelha em pé, bispou de qualquer modo os projetos de Ambrosina e, revoltado na sua surpresa, tratou de destruílos.
A sua primeira idéia foi de contar tudo a Gaspar, hesitou, porém. — Quem sabia lá se aquela revelação não iria dar motivo a qualquer fato lastimável?... Contudo, não lhe podia sofrer a paciência que o velhaco do Melo abusasse, assim sem mais nem menos, da boafé do pobre Gabriel, a quem Jorge deveras apreciava.
— Nada! concluiu ele. Quero que um raio me parta, se eu não desmanchar esta pouca vergonha!
E foi à procura do patrão, com o desassombro de quem vai resolvido a cumprir o seu dever.
Gaspar não estava em casa, e Jorge não queria entenderse diretamente com Gabriel; este, porém, com tal ansiedade lhe falou de Ambrosina, tão impaciente se mostrou pelas notícias delas, que o pobre do homem, depois de coçar a cabeça, torcer o chapéu entre as mãos e limpar o suor da testa, exclamou:
— Com todos os diabos! A verdade dizse!
Gabriel assustouse.
— É que não posso ver ninguém iludido! despejou o cocheiro. Sei que vossemecê projeta uma viagem com D. Ambrosina, e sei também que o Melo Rosa anda a desencabeçar a moça para não ir!
— O Melo Rosa?... Mas que diabo pretende esse tipo?
— Ora, o que há de ser? Quer que a Sra. D. Ambrosina, em vez de acompanhar a vossemecê, fique na companhia dele! Aí está!
— E Ambrosina o que diz?...
— Isso lá é que não sei! Tola será ela, se largar um moço formado, bem parecido, bom e rico, como vossemecê, por um trocatintas daquela força! — Tu não sabes o que são as mulheres, Jorge!
— O que lhe afianço é que faz tudo, o tratante, para seduzila. Tenha a bondade de ler esta carta...
Gabriel leu no papel que lhe passou o cocheiro:
"D. Ambrosina.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.