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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Sigamos agora por este extenso corredor, e no fim dele entremos no salão chamado dos guardiões.

É, como o primeiro, uma pequena sala a que impropriamente se empresta o nome de salão. Tem duas portas que abrem para um terraço que domina a entrada da barra e grande parte da cidade. É simples, sem ornamentos, conforme o preceito da ordem seráfica. Pode, porém, ufanar-se de possuir em suas paredes quatro verdadeiras preciosidades, que são os retratos de Rodovalho, São Carlos, Sampaio e Mont’Alverne, devidos à paleta do Sr. Tironi.

Daqueles quatro admiráveis oradores do púlpito brasileiro só Mont’Alverne nos deixou uma coleção de uma parte dos seus sermões. Os tesouros da inteligência dos outros perderam-se, ou completamente, ou em sua máxima parte.

Frei Antônio de Santa Úrsula Rodovalho era natural de Taubaté, província de S. Paulo, e, dizia Mont’Alverne, que era Rodovalho o frade mais sábio da província de N. S. da Conceição do Rio de Janeiro. Foi um orador profundo e muito conceituado. Morreu a 2 de dezembro de 1817, e não me consta que se saiba o fim que levaram os seus sermões.

Ainda há quem se lembre de ter ouvido Frei Rodovalho pregar; e sei de um ancião que ocupa uma alta posição oficial, e que é muito notável por seus conhecimentos e ilustração, que conserva de cor quase toda a oração fúnebre que aquele célebre franciscano pregou na igreja da Misericórdia nas exéquias do Marquês de Lavradio.

S. Carlos fez presente de cerca de setenta sermões que tinha conservado a um clérigo secular da sua amizade, que o freqüentou muito nos seus últimos dias de vida. E o padre cujo nome não quero declinar sumiu um legado tão precioso que era mais da pátria que dele próprio.

Sampaio morreu de um ataque apoplético e deixou em sua cela um caixão contendo mais de trezentos sermões. O provincial que então servia, e que era Frei Joaquim de São Daniel, arrecadou o caixão em que ninguém mais pôs os olhos; e quando, em 1852, faleceu, algumas horas antes de morrer, ou na véspera do dia do seu passamento, ofereceu esse rico tesouro a um jovem religioso seu discípulo.

Mas a última vontade de São Daniel não foi cumprida. O caixão de sermões foi arrecadado pelo provincial que nessa época servia, e cujo nome não declino porque ainda existe, e sem dúvida ainda guarda zeloso aquela riqueza, de que não houve mais notícia, e que, eu o penso, pretende por sua morte legar à corporação a que pertence.

Muito melhor e louvável fora que o respeitável religioso entregasse ainda em sua vida, e quanto antes, esses desejadíssimos trabalhos do ilustre Frei Sampaio. A isso o convida o dever do patriotismo e da religião.

Entretanto, penso que para glória e crédito da sua ordem, e também para a glória da pátria, devem os frades capuchos empenhar-se em obter aquele precioso caixão ou, pelo menos, em reunir e publicar em uma coleção esses poucos sermões que existem impressos em folhetos e alguns manuscritos que restem dos numerosos trabalhos desses grandes pregadores, para que os vindouros possam ao menos fazer idéia da robusta, esclarecida inteligência de tão distintos brasileiros.

Foi pena que se esbanjassem tantos e tão preciosos tesouros.

Frei Sampaio especialmente era de uma fertilidade pasmosa. Sentava-se à mesa, dobrava duas, três ou quatro folhas de papel, cosia-as, tomava a pena e escrevia sem parar, com uma letra sempre igual, miúda e de caráter antigo. Não emendava nem riscava, e acabava o discurso exatamente no fim da última página do folheto que preparava.

Sampaio gostava de ter dinheiro; e como não lhe sobrassem os meios, escrevia sermões para os padres, que lhes iam encomendar ao preço de quatro mil-réis. Faça-se idéia dos triunfos que se alcançaram aí pelos púlpitos da cidade e das freguesias do interior, à custa de Frei Sampaio.

Era de uso naquele tempo que os pregadores franciscanos pagassem ao convento, de cada sermão de Evangelho, uma dobra , e de cada prática, quatro mil réis. O ônus era pesadíssimo, porque então não se gratificavam tão bem como hoje os oradores sagrados.

Os frades capuchos pregadores revoltavam-se todos contra semelhante tributo, e era já objeto de divertido e tolerável empenho no convento o ver qual deles podia escapar, por inocente astúcia, ao pagamento da dobra ou dos quatro mil-réis.

Contava muitas vezes Mont’Alverne que um dos maiores desapontamentos por que passara fora devido àquele empenho.

Tinham-lhe ido encomendar um sermão para uma festa que no dia 15 de agosto se devia celebrar na igreja dos Terceiros do Hospício.

Mont’Alverne declarou que pregaria, se se guardasse inviolável segredo a respeito do nome do pregador. Aceita a condição, preparou o seu sermão; e no dia da festa, saiu do convento, pregou e voltou para a sua cela sem que um só dos frades, e menos o guardião, concebesse a menor suspeita sobre o caso.

(continua...)

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