Por José de Alencar (1857)
— Mas tu não és escravo!... respondeu Cecília com um gesto de contrariedade; tu és um amigo sincero e dedicado. Duas vezes me salvaste a vida; fazes impossíveis para me veres contente e satisfeita; todos os dias te arriscas a morrer por minha causa.
O índio sorriu.
— Que queres que Peri faça de sua vida, senhora?
— Quero que estime sua senhora e lhe obedeça, e aprenda o que ela lhe ensinar, para ser um cavalheiro como meu irmão D. Diogo e o Sr. Álvaro. Peri abanou a cabeça.
— Olha, continuou a menina; Ceci vai te ensinar a conhecer o Senhor do Céu, e a rezar também e ler bonitas historias. Quando souberes tudo isto, ela bordará um manto de seda para ti; terá uma espada, e uma cruz no peito. Sim?
— A planta precisa de sol para crescer; a flor precisa de água para abrir; Peri precisa de liberdade para viver.
— Mas tu serás livres; e nobre como meu pai!
— Não!... O pássaro que voa nos ares cai, se lhe quebram as asas; o peixe que nada no rio morre, se o deitam em terra; Peri será como o pássaro e como o peixe, se tu cortas as suas asas e o tiras da vida em que nasceu.
Cecília bateu com o pé em sinal de impaciência.
— Não te zanga, senhora.
— Não fazes o que Ceci pede?... Pois Ceci não te quer mais bem; nem te chamará mais seu amigo. Vê; já não guardo a flor que me deste.
E a linda menina, machucando a flor que arrancou dos cabelos, correu para o seu quarto e bateu a porta com violência.
O índio voltou pesaroso à sua cabana.
De repente cortou o silêncio da noite voz argentina, que cantava uma antiga xácara portuguesa, com sentimento e expressão arrebatadora. Os sons doces de uma guitarra espanhola faziam o acompanhamento da música.
A xácara dizia assim:
“Foi um dia. — Infanção mouro
Deixou Alcáçar de prata e ouro.
Montado no seu corcel.
Partiu
Do castelo à barbacã
Chegou;
Aos pés daquela a quem ama
Sem pajem, sem anadel.
Viu formosa castelã.
Jurou
A gentil dona e senhora
Ser fiel à sua dama.
Sorriu;
Ai! que isenta ela não fora!
‘Tu és mouro; eu sou cristã’:
Falou
A formosa castelã.
‘Mouro, tens o meu amor;
Cristão,
Serás meu nobre senhor.’
Sua voz era um encanto,
O olhar
‘Antes de ver-te, senhora,
Quebrado, pedia tanto!
Fui rei;
Por ti deixo meu alcáçar
Serei teu escravo agora.
Fiel;
Por ti deixo o paraíso,
Meu céu
Meus paços d’ouro e de nácar.
É teu mimoso sorriso.’
A dona em um doce enleio
Tirou
As duas almas cristãs,
Seu lindo colar do seio.
Na cruz
Um beijo tornou irmãs.”
A voz suave e meiga perdeu-se no silêncio do ermo; o eco repetiu um momento as suas doces modulações.
TERCEIRA PARTE
OS AIMORÉS
I
PARTIDA
Na segunda-feira, eram seis horas da manhã, quando D. Antônio de Mariz chamou seu filho.
O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou refletindo sobre os perigos que ameaçavam sua família.
Peri lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os Aimorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e o espírito vingativo dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.
Por isso, de acordo com Álvaro, D. Diogo e seu escudeiro Aires Gomes, tinha tomado todas as medidas de precaução que as circunstâncias e sua longa experiência lhe aconselhavam. Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de selar duas cartas que escrevera na véspera.
— Meu filho, disse ele com uma ligeira emoção, refleti esta noite sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deveis partir hoje mesmo para São Sebastião.
— Não é possível, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando correis um perigo?
— Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e meu herdeiro legitimo, o protetor de minha família órfã.
— Confio em Deus, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se ele nos quiser submeter a tal provança, o único lagar que compete a vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ela seja.
D. Antônio apertou seu filho ao peito.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.