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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” prosseguindo no seu canto, saltou pela terceira estrofe do romance, e cantava a quarta:

“O que é feito da virgem, do pobre?... “Quando o dia voltar to direi; “Negro manto da noite nos cobre.

“Ela dorme... mas ele... não sei.

“E’ na terra das trevas o véu;

“Vagam sonhos... mistérios do céu.”

A voz parou como até então fizera, e a “Bela Órfã”, guardando apressadamente os seus papéis, saiu do quarto, desceu a escada, e entrou na sala.

Não havia ninguém aí.

Celina sentou-se ao piano, e começou a tocar uma música terna e melancólica. O velho Rodrigues apareceu à porta da sala, e aproximou-se com seu andar vagaroso.

– Tinha-se esquecido de mim, senhora, disse ele.

A moça abaixou a cabeça, e respondeu:

– Tenho passado mal.

– Está doente?...

– Não estou boa.

– Acha-se hoje melhor?

– Não.

– Talvez que nesse caso possa a música incomodá-la.

– Ao contrário.

– Quer cantar?...

– Não; quero ouvir.

– Escolha o que quiser, senhora.

A moça hesitou; mas enfim respondeu com a cabeça baixa:

– O mesmo romance que estava cantando há pouco.

O velho Rodrigues começou de novo a cantar o “Sonho da Virgem”.

Quando o canto terminou, a “Bela Órfã” deixou cair a cabeça, e ficou pensativa.

Depois de algum tempo de silêncio, o velho perguntou:

– Por que está triste assim?

– Não sei; respondeu a moça.

– Faz-lhe mal ouvir este romance?

– Não; faz-me bem.

– Mas essa tristeza deve ter forçosamente uma causa... qual é ela?...

– Eu não sei, tornou a moça enxugando uma lágrima.

O velho fingiu não ver essa lágrima, e prosseguiu dizendo:

– Parece que a melancolia é a moléstia reinante da quadra atual.

– Por quê?...

– Tenho um bom amigo padecendo do mesmo mal.

A moça não disse nada.

– Um bom amigo, que a senhora também conhece.

– Quem é ele?

– O sr. Cândido.

Celina olhou espantada para o guarda-portão, mas para logo abaixou os olhos rubra de pejo.

O velho deixou que a “Bela Órfã” serenasse, e depois continuou:

– É um bom moço aquele sr. Cândido.

A moça não respondeu.

– Não pensa como eu? perguntou o velho.

– Penso, murmurou Celina.

– Pois o infeliz moço anda agora bem triste; e desgraçadamente com razão.

A “Bela Órfã” fez um leve movimento.

– Incomodo-a, senhora?

– Não.

– Dizia pois que o sr. Cândido tinha bastante razão para andar triste...

ofenderam-no gravemente...

– Sinto isso, balbuciou a moça.

– E há de sentir mais quando souber que se serviram do seu nome para ofendê-lo...

– Do meu nome?... disse a moça estremecendo, e levantando ao mesmo tempo a cabeça.

– Do seu nome, repetiu o velho.

– E como? e por quê? eu não sei, eu não suspeito coisa alguma...

– Estou certo disso, senhora; mas o fato é grave, e eu não sei se cometo uma imprudência falando-lhe desse assunto.

– Não, não, fale; eu lhe peço que fale.

– Pois bem, eis aqui o que se passou: o sr. Cândido foi política, mas formalmente despedido desta casa.

– Quando?... exclamou com traidora comoção a “Bela Órfã”.

– Na noite de seus anos.

– E por quê?

– Por sua causa.

– Por minha causa?... meu Deus!... disse a moça com lágrimas nos olhos.

– Sim, minha senhora: sua tia teve com o sr. Cândido uma entrevista no jardim; quer saber o que ela disse? que nesta sala zombava-se da senhora, dizendose que a senhora e o pobre mancebo se amavam...

– É falso!.. isso não é verdade.

– E que em conseqüência dessas zombarias fora a senhora queixar-se a ela de que seu nome estava exposto às calúnias e à maledicência por causa do sr. Cândido.

– Meu Deus! Meu Deus!...

– Que a senhora fizera notar que esse mancebo, apesar de suas boas qualidades, não estava pelo estado de pobreza em que se acha, na posição de pretendê-la.

– Oh! mas eu não disse nada.

– E finalmente, senhora, sua tia fez compreender ao pobre moço que a presença dele no “Céu cor-de-rosa” tornava-se incômoda e prejudicial à senhora.

– E ele?... perguntou Celina.

– Retirou-se, e não voltará mais nunca ao “Céu cor-de-rosa”.

– Acreditou em tudo?!

– Como não acreditar, senhora?!...

– Oh! e me detesta!... e julga mal de mim!...

– Não! não; ele ainda não soltou uma só queixa.

– E como sabe o senhor de tudo isto?...

– Eu estava no jardim, ou perto dele. Estava em um lugar onde podia e pude observar quanto se passou.

– Oh! e então por que não jurou, por que não disse a esse mancebo que era

falso tudo isso que avançaram contra mim?...

(continua...)

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