Por Lima Barreto (1911)
— Ainda mora em Petrópolis?
— Ainda, Doutor.
— Naquela casa da Westfália?
— Não, Doutor. Na Cascatinha.
— Oh! que bela casa... Tão bonita... Aquele seu jardim é muito “chic”; poucos há aqui como ele. E que camélias? De que morreu o Lopo?
— Tuberculoso.
— Parecia tão forte. Não fui ao enterro porque não me foi de todo possível; mas, creio que recebeu o meu telegrama.
— Recebi, Doutor; e agradeci.
— Lembro-me. O Lopo era muito meu amigo. Ultimamente encontrávamonos pouco. Vivia em Petrópolis e eu pouco lá vou. Quando o faço, é às carreiras; senão teria aparecido para um “poquersinho”.
— Ele gostava muito...
— Eu morro por ele. Muitos filhos, minha senhora?
— Uma única, uma filha.
— Assim mesmo foi feliz.
— Nem tanto, Doutor. Lopo não deixou quase nada...
— Ah! É verdade... E o montepio?
— Uma coisa de nada. Não dá nem para nos vestirmos.
— Também Lopo era desprendido.
— Muito, Doutor, Eu lhe dizia sempre que pensasse no futuro.
— Era um poeta... A senhora não requerei uma pensão?
— Requeri.
— Já me haviam falado nisso. Quem foi, Fuas?
— Devia ter sido Mme. Arlete.
— É verdade. Em que estado está o “seu” projeto.
— Está no Senado, e eu esperava que o senhor se interessasse pela passagem.
— Pois não... Pois não... — Muito agradecida.
A viúva ergueu-se arrepanhou bem a saia irrepreensível e pisou com firmeza na porta da saída.
Fuas ficou um instante em pé, acendeu o charuto que se havia apagado, tirou fortemente as primeiras fumaças, lembrou-se num relâmpago do que havia sido, como se apossara daquele jornal com a ousadia de pirata argelino, por fim pôs as mãos nas algibeiras da calça; e, com a boca semi aberta, ao lado esquerdo, e o charuto ao direito, em mangas de camisa, esteve a olhar com desdém a multidão que escorria lá em baixo roçando as paredes do seu cotidiano.
CAPÍTULO IX
Entre nós, muita gente tem mania de caboclo e havia na cidade uma senhora idosa, D. Florinda Seixas, que cultivava essa mania com muito carinho e constância. Desde anos que a sua casa vivia cheia deles; e, ao surgir a candidatura Bentes, D. Florinda aderiu a ela com os seus caboclos hirsutos. Acontecia também que Bentes tinha um tio, já falecido, mais ou menos notável; e D. Florinda muito naturalmente juntou a sua mania indígena à admiração que sempre professou pela memória do tio de Bentes, o almirante Constâncio. Fundou, consequentemente, uma sociedade — Sociedade Comemorativa do Falecimento do Almirante Constâncio. O principal fim da sociedade dizia-lhe o nome; mas tinha outros, entre os quais, o do ensino do guarani e o das aclamações às pessoas de destaque.
D. Florinda, tendo fundado associação tão útil encontrou dos poderes públicos a maior boa vontade . Foi subvencionada e, graças ao jeito que tinha para agradar, todos a julgaram muito útil em sanar as dificuldades e procuravam-na, aderindo à sua proveitosa associação.
A velha senhora, antes mesmo da fundação, já tinha demonstrado os seus préstimos e, não havia noite em que, com um, dois, ou mais caboclos, não aparecesse nas casas de Bentes ou do Bastos.
Corria que os caboclos eram duvidosos; que eram desertores de regimentos do exército, estacionados no Paraná e Rio Grande do Sul; o certo é que, como caboclos, eles se portavam nas visitas que faziam com a preceptora.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.