Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Quando dos olhos lágrimas correndo,
Do peito saem suspiros lastimosos,
Tributando-lhe juntos nesta mágoa
Os peitos fogo amante, e os olhos água.
IX
Inspira o céu ao guardião Aiguerio,
Que amortalha a Francisco com decência
No hábito que trouxe, por mistério,
Da matrona Jacoba a diligência.
Assim lhe diz com reverente império
Que o aceite em virtude da obediência:
E Francisco, com ânimo sujeito,
Prontamente obedece ao seu preceito.
X
Ó singular modelo de humildade!
Ó raro paradigma da pobreza!
Ó pasmo superior da sanidade!
Ó tocha da mais bela luz acesa!
Ó esfera em que arde a caridade!
Ó relevante cifra da pureza!
Quem soube, como vós, sempre constante,
Ser pobre, santo, puro, humilde e amante?
XI
Na morte, depois dela, e mesmo em vida,
Sempre por santo foste venerado,
E por santo, três vezes quem duvida?
Sois Serafim no empíreo laureado.
Da vossa consonância às mais unida, é Deus louvado;
No céu três vezes santo,
Pois sois santo três vezes, não me espanto
Canteis qual Serafim três vezes santo.
XII
A número os prodígios superiores
Intentar reduzir deste portento
É querer numerar do campo as flores
E as estrelas contar do firmamento.
Só poderão contar vossos louvores
Voz seráfica, angélico talento;
Que pra assunto tão alto e soberano
É limitado o entendimento humano.
Não foi o poeta quem trasladou para os quadros as oitavas que compusera; e explicam-se por isso não poucos erros de ortografia que nessa cópia se notam, assim como é certo que São Carlos se queixava de erros ainda mais graves que o copista cometera e que ofenderam a substância da composição.
Guardemos, no entanto, com amor estes versos do jovem inspirado. Tudo quanto respeita e se refere ao nosso São Carlos deve necessariamente ser-nos grato.
Chegou a vez do terceiro quadro, que nos apresenta o milagre que fizera S. Francisco, ressuscitando um bispo na ocasião em que o cadáver deste, colocado sobre a peça, ia ser encomendado pelo cabido.
Este painel não tem no salão da portaria a mesma data dos dois anteriores, e veio muito depois deles substituir outro, que caíra no desagrado do bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco.
Sabe-se que o patriarca São Francisco de Assis apareceu como um enviado do Céu, no meio das vicissitudes e duras provas por que passou a igreja nos últimos anos do século décimo-segundo e nos primeiros do seguinte, em que as heresias, o desprezo da moral evangélica e a corrupção dos costumes faziam a vergonha do próprio clero e de muitos bispos. São Francisco entendeu que a verdadeira caridade deve principiar por casa, e atacou os abusos, as irregularidades do clero e dos bispos, e conseguiu os triunfos que o tornaram admirável aos olhos do mundo.
Um antigo pintor, querendo, ao que parece, aludir a esses fatos, e usando daquela liberdade que o mestre Horácio reconhece como um direito dos poetas e dos pintores, pintou um grande quadro alegórico, no qual era representado o santo patriarca empunhando, como o profeta de Terbes, uma espada, e na ação de degolar com ela um bispo que ele sustinha pelos cabelos.
Não sei se a alegoria era de bom gosto. Certo é, porém, que esse painel foi por muitos anos conservado no salão da portaria do convento de S. Antônio.
Mas veio um dia em que o bispo D. José Joaquim Justiniano deu aos capuchos do Rio de Janeiro a honra de uma visita, e entrando no salão da portaria, estacou diante do quadro tremendo e ofensivo da dignidade dos bispos.
– Que quadro é este? – exclamou. – São Francisco de Assisnunca praticou ação semelhante!
– É uma simples alegoria – disse o provincial.
– Simples? É uma alegoria insultuosa e indigna. É uma pintu-ra indecente, que não deve existir em um convento!
O bispo estava irritadíssimo, e ordenou logo depois que o painel fosse arrancado e inutilizado.
A ordem foi cumprida, e o quadro do bispo ressuscitado substituiu o do bispo em ação de ser degolado.
Era a substituição da imagem terrível da morte pela imagem risonha da vida.
Tempos depois, o bispo D. José Joaquim Justiniano tornou ao convento de S. Antônio; e, vendo o novo quadro que tomara o lugar do antigo, disse, com uma alegria beatificadora:
– Este sim! Este sim!
IV
O primeiro andar do convento de S. Antônio do Rio de Janeiro ainda nos deve dar precioso entretenimento para um longo passeio.
Tínhamos parado no salão da portaria, que estudamos já
suficientemente.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.