Por José de Alencar (1872)
Entretanto Berta, à proporção que avançava para ela a boicininga, ia-se retraindo; erigiase o busto, e ressurgia-lhe n’alma essa elação que a desfere ao céu e que imprime na criatura humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina têmpera de seu caráter altivo e inflexível.
Quando a cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um choque íntimo percutiulhe o corpo, e estorceu o toro da serpente. Mas passou instantaneamente; o réptil elandose pelo braço mimoso, veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.
Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia; a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.
IX
Transe
Enquanto rápidos corriam os últimos acontecimentos, Brás erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do pátio.
Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar à janela; mas escorregava por falta de apoio ou saliência a que se agarrasse para alcançar o batente. Afinal de um salto enorme logrou o intento; e pode grimpar-se até o peitoril, onde agachou-se.
Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente que lhe servia de látego.
Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de que a ameaçara com seu desazo.
Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda atirou-se a ela para abraça-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.
Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu látego vivo, a zunir pelos ares. Cheios de espanto, Linda e o irmão seguiram com os olhos o vulto do idiota até que sumiu-se; e voltaram-se para obter de Berta a explicação daquela terrível insânia que eles não haviam compreendido.
Berta porém tinha desaparecido.
Restabelecida da fascinação que sofrera, recordou-se a menina do motivo que a trouxera àquela alcova, e receando ter perdido muito tempo, esgueirou-se ligeira pelo interior da casa para ganhar as plantações e seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.
No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa aquele zunzum, avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho, que rosnava a sua monótona lengalenga em gíria africana.
- Psiu! fez a menina.
- Nhá moça?
- Vamos depressa que já perdi muito tempo.
Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua figura de arco de pipa. Apesar da torção que lhe vergara o espinhaço como uma hástea de taquaruçu, conservava ele ainda certa agilidade nas gâmbias, que se moviam à semelhança das patas de uma guaiamu.
Sulcava a capoeira um trilho estreito, porém muito batido a julgar pela fita de argila socada e nua que serpejava, à guisa de um cipó, entre a grama. Por aí tomou Quicé, e a menina o seguiu com tamanha impaciência que sua mão sôfrega tocava amiúde o liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginação lhe representava Jão preso, algemado; quisera ter asas para voar.
Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia légua, regaço da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura já o machado havia desbravado do lado por onde vinham Berta e seu guia.
Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovão, o que era para admirar-se, pois o céu estava límpido, e no azul cristalino não se via capulho ou flocos de nuvens.
Entretanto o surdo trovão crescia e vinha rolando das profundezas da floresta, mas contínuo, incessante, sem as intermitências dos roncos da procela. A terra, como percutida por violento abalo, tremia, reboando os ecos do estranho fragor.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.