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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Podes ouvir-me um instante? 

- Acabada esta carta; é a de Luísa e Bela. 

Fábio fez um trejeito de homem pilhado na esparrela. 

- Podes falar. 

- Sem preâmbulos. Queres fazer tua felicidade? 

- Para isso trabalho eu há dez anos. 

- Pois não é preciso mais trabalhar: basta que estendas a mão. 

- Achaste a lâmpada de Aladino, e me queres fazer presente dela? 

- Não; mas descobri que o anel da Guida que é mais precioso do que o de Giges, foi feito para teu dedo. Ah! Assim me servisse ele! 

- Já te pedi que não repitas esse gracejo. 

- Não estou gracejando; falo sério, mais sério que a burra de bronze de teu futuro escritório. A Guida gosta de ti, acabei de convencer-me hoje. 

- Não suspeites da pureza de uma menina sisuda, e com má intenção, disse Ricardo abrindo um livro para cortar a conversa. 

- Assim recusas! Quando a riqueza e a felicidade te procuram e vêm tirar-te desta boceta que por uma metáfora atrevida e arriscada, como dizia o Padre Fidélis, chamam sótão, e onde vives empalado, tu a enxotas como uma importuna? E não te lembras de tua mãe, de tua irmã, dos teus, sobre quem se derramaria a tua felicidade como um benefício do céu?... És um egoísta, Ricardo! 

Ricardo ergueu-se. 

- É pena realmente que o anel não sirva em teu dedo, Fábio! Pois tu não hesitarias em sacrificar-te para a felicidade de todos nós, inclusive a de Luísa!

- Sem dúvida! 

- Ao menos tens o mérito da franqueza, tornou Ricardo com ironia repassada de desgosto. 

- Ora! tu não me pareces um advogado da corte! Não há estudante de São Paulo que não saiba ao terceiro ano o que é um caso de força maior, e quais são os seus efeitos jurídicos. Pois, meu caro Ricardo, um dote de um milhão com a perspectiva de outro por herança, em matéria de amor não é só força maior, é uma fatalidade.

- Vejo que aproveitaste bem o teu curso! 

- Se que que amo Luísa, e estou na obrigação de amá-la toda a vida, salvo o caso de força maior, a esquecesse para casar-me aí com qualquer outra moça, seria decerto um ingrato, um monstro de perfídia. Mas sendo para casar sem amor, por cálculo, com uma boneca do valor de um milhão, daria um exemplo sublime sacrificando a paixão aos ditames da razão. Os heróis da história e da fábula são todos feitos por esse modo. O coração fica intacto; e dentro dele, como a lâmpada do santuário, arde sempre o primeiro e eterno amor. Eis como eu penso. - E Luisinha pensará do mesmo modo? 

- Deve, porque me ama. 

- A razão é original! 

- Julgo-a por mim. Sabes que amo tua irmã. Pois bem; aparecesse um casamento milionário para ela, e eu seria o primeiro a dizer-lhe: “Luísa, eu não sou o nec plus ultra dos homens; mas um pobre mortal com algumas qualidades e muitos defeitos. Como eu, se encontram aí pelas ruas às dúzias. Um milionário porém, meu anjo, é uma espécie rara, um animal exótico, um fenômeno social; vale a pena dar a gente um molho de esperanças que afinal murcham como o alecrim, para ter o prazer de possuí-lo”. 

- Não me admira essa linguagem da parte de um homem que ama à tua maneira. 

- É outro ponto em que discordamos. Tu tens a fidelidade do frade, eu a do soldado; tu foges, eu combato. Quando um homem conta à mulher amada suas conquistas e as seduções que sacrificou à sua beleza, ela deve ter legítimo orgulho.

- Guarda o teu espírito para o baile, Fábio; não o estejas esperdiçando nesta cela, onde só cabem as tristezas  e preocupações da vida. Melhor farias se me respondesses seriamente a uma pergunta.  

Fábio calou-se surpreso da severidade do olhar de Ricardo. 

- Donde te vem o dinheiro que despendes nesta vida de luxo?

- Ora! Uma ninharia! 

- Vês; tu coras e evitas responder-me. 

- Emprestaram-me. 

(continua...)

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