Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
No dia seguinte, e na hora em que a “Bela Órfã” tinha por costume ir cantar, e ouvir o velho Rodrigues, estava Celina encerrada em seu quarto e toda entregue a suas meditações.
– É-me preciso falar, pensava ela: não se pode viver assim em silêncio com a alma cheia de angústias, e condenada a não soltar um só gemido. Os homens têm o direito de chorar bem alto!... quando se diz o que se está padecendo, parece que o mal abranda um pouco...
Ela pensou alguns instantes, e prosseguiu:
– Seguramente aqueles que escrevem, os poetas em primeiro lugar, devem achar bastante consolação escrevendo. Esses sim, não têm necessidade de um seio onde depositem os seus pensamentos, seus segredos e suas dores; eles têm uma amiga fiel e mais condescendente que nenhuma outra na sua pena; quando sofrem, escrevem, dizem o que têm no coração; exaltam-se, eternizam suas penas, suas desgraças, e nessa mesma eternidade acham um grande lenitivo para sua dor. Um poeta!... se ele ama, ele o diz nos seus livros, faz do que se passa em sua alma um romance; está dizendo que ama e a quem ama à face do mundo inteiro, e ninguém compreende o belo segredo que está derramado em todas as páginas de seu livro senão a pessoa que ele quer que compreenda!... oh!... se eu fora poetisa!
E prosseguiu ainda:
– Um poeta! um homem excepcional... o gênio tem por força em si alguma coisa de divino; assim como o oceano é no universo o que poderia dar a idéia do infinito, se a idéia do infinito se pudesse dar; o poeta arremedaria o poder da divindade, se esse poder chegasse a ser arremedado. Porque o poeta cria também o seu mundo, o seu universo; levanta palácios e abre cavernas; desprende as tempestades e faz belas auroras... oh!... que riqueza há aí tão rica como a imaginação de um poeta!... oh! se eu fosse poetisa!...
Respirou alguns instantes, e continuou:
– Se eu fosse poetisa... não precisava tanto, se eu pudesse ao menos escrever algumas páginas, que eu mesma não me fatigasse, lendo-as, ao chegar ao fim da primeira... oh!... que felicidade!... eu havia de pintar o estado do meu coração... exalar meus tormentos e minhas saudades nas páginas do meu livro... escreveria com lágrimas; porém depois, que consolação!... eu beijaria minha alma nas minhas letras, beijaria meus olhos nas minhas lágrimas...
Celina hesitou um momento, e depois disse:
– Quem sabe?...
Ficou pensando ainda:
– Não... não eu não escreveria nada que merecesse ser lido... iria descorar o quadro que existe traçado no meu pensamento... mas em suma, ninguém havia de ler o que eu escrevesse... era um livro que depois de acabado eu lançaria no fogo...
oh!... se eu pudesse escrever...
Ela tornou a hesitar e depois disse como da primeira vez:
– Quem sabe?!...]
A moça pensou ainda... parecia lutar entre um grande, um nobre desejo, e um receio, que, apesar de pueril, podia muito no seu ânimo. Enfim o nobre desejo triunfou.
A “Bela Órfã” ergueu-se do leito onde estava recostada, foi primeiro observar se sua tia estava no quarto vizinho... Mariana dormia.
Tomou então todas as disposições para escrever, e sentando-se junto de uma mesa, começou a trabalhar.
O fruto das inspirações daquela virgem de dezesseis anos devia ser cheio de pensamentos inocentes e puros: era talvez como uma flor que derrama na solidão perfumes agradáveis e leves.
Ao terminar a primeira página, a “Bela Órfã” parou de repente ouvindo a voz do velho Rodrigues.
O guarda-portão do “Céu cor-de-rosa” cantava, sem dúvida no fundo do alpendre, um romance já conhecido de Celina.
“Era um dia um mancebo que ardente “Pobre vida esquecido vivia,
“E uma virgem formosa, inocente,
“Que outra igual não se viu, não se via.
“Quem separa o ardor da beleza?...
“Um abismo fatal: – a pobreza.”
O velho Rodrigues parou no fim da primeira estrofe do romance.
Celina, que havia interrompido o seu belo trabalho para ouvir a voz do guarda-portão esperou debalde que ele prosseguisse, durante algum tempo.
Supondo, enfim, que o velho Rodrigues não prosseguiria em seu canto, tomou outra vez a pena, quando a voz de novo se fez ouvir:
“O mancebo a donzela adorava ....
“Quem o sabe!... ninguém dele ouviu.
“Em seu peito esse amor sepultava, “Se o amor em seu peito nutriu,
“E se amava, era triste esse amar;
“Era um mudo e terrível penar.”
O canto, como antes sucedera, parou no fim da estrofe.
– Que quererá isto dizer? perguntou a si mesma a “Bela Órfã”, por que é que o velho Rodrigues canta e se suspende no fim de cada estrofe?... esta é a hora em que mutuamente nos fazíamos ouvir. Quererá ele assim lembrar-me o que tenho esquecido?... mas por que escolheu, para chamar-me, o romance que exprime um segredo do meu coração?...
A voz fez-se ouvir pela terceira vez. Celina ergueu-se meio agitada.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.