Por Lima Barreto (1909)
Larguei a megera com medo da sua velhice e corri à sala onde estava o doutor Loberant. Estava semi-aberta. Aproximei-me da porta. A um canto havia um piano; ao centro uma mesa cheia de garrafas e copos. Pelos divãs, fumando, três pares; as mulheres em camisa e os homens também, mas mais descompostos. Em torno da mesa, uma mulher cavalgava uma espécie de tapir ou de anta. Era Aires d'Ávila, cujas peles do vasto ventre caiam como úbere de vaca. A mulher montava-o com o garbo de uma écuyère e ele rodava em torno da mesa como se fosse um animal de circo. Os ditos choviam, mas não os pude ouvir. Uma das mulheres deu comigo e perguntou, sem espanto, com sotaque estrangeiro:
— Que é que você quer?
Loberant voltou-se e conheceu-me logo:
— Que há Isaías?
— “Seu” Floc matou-se na redação.
Aires d'Ávila voltou à humanidade e, em plena orgia, por entre aqueles homens e aquelas mulheres despreocupadas, passou a augusta sombra da Morte, misteriosa e severa...
XIV
No gabinete do ministro, estavam poucas pessoas. Em frente, em uma mesa nova, o secretário, um capitão de fragata, pálido e alto, com um lindo cavaignac, Napoleão III, que lhe dava um ar de veterano de 70, apesar dos seus cinqüenta anos. Pela janela, descortinava-se uma nesga da baia e da cidade. Era a ilha Fiscal com o seu edifício alicerçado nas ondas; a Boa Viagem cismática e lá, num fundo de infinito, de ilimitado, as muralhas altas de Santa Cruz. Um grande navio entrava lentamente... Embaixo, havia o brouhaha das carroças; juras de cocheiros, estalidos de chicote e o rolar pesado dos caminhões. A Alfândega ficava perto.
Além do secretário, no gabinete, sentado ao lado direito do ministro, estava também o vice-almirante inspetor das construções navais; do lado esquerdo, eu.
O ministro vestia dólmã branco e a sua grande cabeça autoritária e cheia de uns belos cabelos brancos ia de mim para o inspetor, falando sempre e explicando as questões dos consertos:
— Com estas providências, o Governo fez uma economia de perto de seiscentos contos. Você sabe: a indústria oficial é muito cara. O “República” (está aqui o orçamento) tinha os consertos avaliados em quatrocentos e oitenta contos — não era, almirante?
— Quatrocentos e oitenta e sete, respondeu o inspetor.
— Quatrocentos e oitenta e sete contos, repetiu o ministro. Sabe você por quanto ficou nas oficinas das "Forjas"?
— ?
— Trezentos e noventa e sete. Só aí houve uma economia de noventa contos. Agora imagine com o “Sete de Setembro”, a “Parnaíba”, três torpedeiros, rebocadores... Enfim: seiscentos contos de economia.
— Mas Vossa Excelência acha desnecessário o Arsenal de Marinha?
— Não, absolutamente não. Primeiro porque é preciso que haja um campo prático à mão do Estado para os nossos engenheiros navais e, segundo, que ele pode prestar serviços, desde que tenha a emulação do trabalho particular.
— Se Vossa Excelência, disse eu, indo ao encontro dos seus desejos, se Vossa Excelência me quisesse fornecer algumas notas, eu poderia dar uma notícia bem interessante...
E Sua Excelência, com a sua voz quase providencial, auxiliado pela memória do vice-almirante-inspetor, começou a ditar-me as notas, para que todo o Brasil tivesse notícia da sua capacidade de administrador, e de um dos resultados mais fecundos da sua fecunda administração.
Ofereceu-me um havano e, logo que o inspetor saiu, começamos a conversar sobre os encantos da nova chanteuse que se estreara no Moulin-Rouge.
Assim fazia a minha reportagem no Ministério da Marinha. Desde os ministros até aos contínuos, todos me enchiam de mimos e de festas. Era raro o oficial que não me pedia uma notícia, um elogio, um gabo ao relatório da sua última comissão. Os chefes viviam abraçados comigo e forneciam-me notas para o meu noticiário. Assombrava-me que a morgue militar de toda aquela gente fosse desfeita assim naturalmente em presença de um repórter É verdade que já vira muitos, de mar e terra, subirem à redação e insinuarem alusões elogiosas; mas supunha exceções e agora verificava ser geral a inclinação.
Quando se apresentavam, reclamavam a omissão da notícia...
Nos meus primeiros meses de reportagem foi quando amei mais ativamente a vida. Não porque me visse adulado pelos almirantes e capitães-de-mar-e-guerra, mas porque senti bem a variedade onímoda da existência, a fraqueza dos grandes, a instabilidade das coisas e o seu fácil deslizar para os extremos mais opostos. Dois meses antes era simples continuo, limpava mesas, ia a recados de todos; agora, poderosas autoridades queriam as minhas relações e a minha boa vontade.
E toda essa modificação tão imprevista no meu viver, viera-me do suicídio do Floc. Tendo surpreendido na casa da Rosalina, em plena orgia, o terrível diretor, vexei-o. Nos primeiros dias, ele nada me falou; mas já me olhava mais, considerava-me, preocupava-o no seu pensamento. Breve me fez perguntas de boa amizade: donde era eu, que idade tinha, se era casado, etc. As respostas eram dadas conforme as perguntas; bem cedo, porém, graças à bondade com que me tratava, as ampliei até à confidência.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.