Por Lima Barreto (1911)
— Porque era parente de Bentes.
— Está aí. Um pequenote aí qualquer descobre um parente melhor, porque é coronel por cima de tudo, e dá-te o tombo.
— Mas Bentes é contra as oligarquias.
— É contra! É contra! Ora, tu, Macieira!...
Fuas chupou o charuto, rodou-o entre os lábios para melhor queimar e disse:
— Agora é tratar de salvar-te.
— Como?
— Pois não sabes? Tens ainda muito remédio...
— Escreve alguma coisa.
— Escrevi; mas é preciso jogar influências em cima dele.
— Tu não podias?
— Direi alguma coisa; mas de que necessitavas era de uma influência permanente.
— O Hildebrando?
— Não te fies nele. Quer muito, quer tudo, e talvez não faça nada.
— Quem pode ser?
— Uma mulher!
— Quem?
— A mulher de Lussigny.
— Como?
— Pois tu não sabes?... Olha: quando Bentes foi à Europa, Lussigny estava a tinir. Tinham gasto o que possuíam e a mulher rendia pouco. Que fez Lussigny logo que soube da chegada de Bentes? Atirou a mulher em cima dele. Tu sabes bem que Bentes nunca esteve acostumado a essas mulheres de espavento, plumas, perfumes, cerimônias; e caiu que nem um patinho.
— É verdade?
— É verdade e tanto é verdade que eles pagaram as dívidas que tinham e vão embarcar para aqui, deixando a vida de “trem de luxo” que levavam. Por aí tu ias bem, infelizmente, porém, a coisa é para breve e os serviços...
— Como poderia conseguir?
— Como? Pois tu não sabes/ Como tu consegues os colarinhos e os punhos? No nosso tempo, todos os serviços têm o seu preço... Tu não sabes?
Macieira não sabia coisa alguma dessa influência poderosa sobre o ânimo de Bentes. A descoberta alegrou-o e ele a pôs de parte como um trunfo forte para ganhar a partida. Fuas fumava recostado na cadeira, batendo as mãos sobre o ventre farto:
— É isto! É isto, meu caro!
— E Bastos?
— Bastos está atarantado... Ainda não tomou pé nessa história toda... O melhor que tu fazes é adiar a eleição e esperar que a mulher do Lussigny venha.
Deixou-o o senador a escrever uma local em que se pedia ao Congresso que votasse afinal o crédito para instalação da Estação Experimental de Reversão Animal e Quadruplicação dos Bois. Não se compreendia como até ali não tinha sido feito e como é que o governo pagava empregados que não tinham o que fazer, visto lhe faltarem os meios adequados. A fazenda, laboratórios, aparelhos, e demais pertences não chegariam a alcançar o preço insignificante de quatrocentos contos de réis; e não se devia deter o patriotismo dos parlamentares em votar semelhante crédito, desde que levassem em consideração a utilidade da instituição. Fuas era entusiasmado dos projetos de Bogoloff; e, partilhando o seu saber e os seus planos, aconselhara-o a fazer suas compras em uma certa casa, até mesmo se encarregara de fazê-las diretamente.
— Pode entrar, minha senhora.
Fuas julgou reconhecer aquela senhora e logo simpatizou com o seu demorado sorriso que lhe banhava o rosto todo.
— Sente-se.
A senhora sentou-se, apertou a blusa na cintura com o auxílio do dorso da mão esquerda, e disse:
— Não me conhece, Doutor Fuas?
— Minha senhora...
— Eu sou a viúva do Dr. Lopo Xavier.
— Oh! Sim! Sim! É verdade!
Fuas descansou o charuto e continuou pressuroso:
— Não a tinha reconhecido... Não tem mudado nada...
— Não é o que dizem.... Creio que emagreci um pouco.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.