Por Aluísio Azevedo (1897)
Depois, Ambrosina atiravaselhe aos pés, ofegante, pedindolhe por amor de Deus uma carícia. E o desgraçado, à vista daqueles olhos, daquela boca e daquele colo, reconstruía vertiginosamente toda a felicidade perdida, e rolava em delírio nos braços da perjura, exclamando entre beijos:
— Eu te amo — Eu te amo! Sumase tudo que não seja nosso amor! Vivamos somente para nós! Esqueçamonos do resto do mundo, fechados um para o outro!
Mas Gabriel, ao chegar a esta conclusão do seu desvario, estremeceu e estacou em meio da rua, como se por dentro lhe picasse uma víbora.
Era a Razão, que continuava de alcatéia, e lhe ferrava na consciência a primeira alfinetada.
Ele passou a mão pelos olhos, corou, e disse entredentes:
— Não! Juro que serei forte! Juro que terei brio!
Havia chegado defronte da porta de Jorge.
Bateu na rótula.
XXVII
O DENTE DE COELHO
Veio abrir a velha Benedita.
Gabriel arquejava.
A sua aparição, ali na casa do cocheiro, produziu alvoroço, tanto em Ambrosina, como em Laura. Esta, porém, retirouse discretamente, deixando os amantes em completa independência, e a outra tratou de esconder a sua comoção.
Toda a retórica, que o rapaz tinha alinhado previamente em seu espírito, como quem prepara a artilharia para uma batalha, espalhouse e voou desfeita ao primeiro olhar de Ambrosina. Ao tomar nas suas mãos a mãozinha branca e suave da formosa moça, nem mais se lembrava ele de uma única palavra de imprecação. Foi com o aspecto triste e combalido que a contemplou da cabeça aos pés.
Assentaramse defronte um do outro silenciosamente.
— Então, sempre lhe mereci uma visita?... disse ela com frieza, para principiar a conversa.
— Venho despedirme... respondeu Gabriel, quase em tom de quem pede desculpa.
Ali, parecia ser ele o delinqüente, e ela a queixosa.
— Despedirse?... perguntou Ambrosina, evidentemente surpreendida com as palavras da visita, mas dissimulando a sua surpresa.
— É! balbuciou ele; vou partir...
— Eu já o sabia... disse a ensoneira, com ar de pouco caso.
— Como já sabia!
— Tinha um pressentimento...
— Ah!
— E calaramse.
— Vai para muito longe?.. perguntou ela depois, cerimoniosamente.
— Não sei... creio que sim
— Não tem destino então?
— Ignoro ainda aonde irei parar!
E Gabriel teve um olhar sinistro.
— Deixou isso naturalmente ao cuidado do padrasto, observou ela, chamando aos lábios um rizinho zombeteiro.
— Não! volveu Gabriel; eu vou só.
— Ambrosina estremeceu.
— Só! Então não vai em companhia do Médico misterioso?
— Não.
— Mas que significa essa viagem?...
Gabriel ergueuse, foi até à cadeira de Ambrosina, tomou as mãos desta, e disse arrebatadamente:
— Significa que não posso viver ao teu lado, e não posso viver sem ti! significa que sou o mais desgraçado dos homens, e tu a mais cruel das mulheres!
— Tudo isso é falso...
— Ah! descansa, que, ainda mesmo se me fosse possível ligarme de novo a ti, eu não o faria! É preciso que eu nunca mais te veja, é preciso que eu arranque do coração todo este vergonhoso amor que me devora! Achase nisso empenhada a minha dignidade! Irei, seja lá para onde for, contanto que me afaste de ti!...
— Eu irei contigo! disse Ambrosina..
— Calate! Não sabes para onde me destino!...
— E o que me importa a mim o destino? Acaso tenho tido na vida alguma generosa estrela que me conduzisse para o bem?... O que posso eu temer de uma viagem, seja qual for, ao lado do homem que amo, do único que até hoje amei?... Sim, meu Gabriel, nós iremos juntos, unidos, inseparáveis, como dois amantes malditos, como os dois primeiros pecadores de amor enxotados sobre a terra!
Gabriel ouvia, sem dar uma palavra.
Ambrosina prosseguiu, depois de uma pequena pausa:
— Quanto me alegra o que acabo de ouvir da tua boca. Se te acompanhasse teu padrasto, não pensaria eu em seguirte; desde porém que vás só, serei tua companheira fiel, a tua doce amiga, a veladora da tuas noites de estudo, porque precisas trabalhar, trabalhar muito, e eu te animarei o esforço com todos os desvelos do meu amor. Oh! quanto me sinto agora radiante de felicidade! Já não sofro! Já não choro! Raioume no coração a aurora de uma nova existência... Vou nos teus braços gozas, enfim, a paz com que eu nestes últimos dias sonhava, de um lar fecundo, abençoado e casto!
— Todavia, disse Gabriel, com um fundo suspiro; bem diversa da tua, é a paz por mim sonhada...
— Hein? Não te compreendo!
— Eu não devo continuar a existir... Adeus. Se algum dia...
Não pôde concluir. Ambrosina atirouselhe nos braços.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.