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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Aqueles dois primeiros painéis, que merecem por certo alguma apreciação, impressionaram um frade capucho ainda muito moço e que já patenteava no convento de S. Antônio um talento brilhante. O jovem religioso foi ter com o provincial e pediu-lhe licença para compor alguns versos que fossem depois escritos por baixo das pinturas. A licença foi obtida, e as telas em que o pincel do pintor reproduzira aquelas cenas receberam novo encanto da musa de um poeta.

Asseverando eu agora que esse poeta foi São Carlos, e que as oitavas por ele escritas foram algumas das primícias do seu belo gênio, está visto que todos me estais pedindo esses versos do cantor da Assunção.

Não me farei rogar.

O quadro de S. Francisco humilhado aos pés do bispo de

Assis tem as seguintes oitavas:

I

Este quadro que admiras, bem traçado,

Destreza do pincel mais primoroso,

Prazer causa ao espírito humilhado,

Terror e confusão ao orgulhoso.

O varão que aqui vês representado

Vence agora de humilde o ser vaidoso,

Que em lutas de vaidade, só caído

Se consegue o laurel de ter vencido.

II

Lançado está por terra e satisfeito,

Porque o pastor que atento o assistira

Formou do seu fervor um tal conceito

Que tudo à mão de Deus atribuíra.

Por ver acreditado este direito,

Em ondas de prazer, glória respira

O justo, que de gosto transportado

Vê que em tudo é Deus glorificado.

III

Assim este exemplar de santidade

Guardava à risca as leis do abatimento,

Reconhecendo a Deus suma bondade

Em tudo, com profundo acatamento.

Não descobre a cegueira da humildade

Nas honestas ações o luzimento;

E por mais que bem obre (ó coisa rara!),

Sempre tem para si que nada obrara.

IV

Tu, pois, que estás a ver atentamente

Primores de humildade tão subida,

Não pares só na vista; se és prudente,

Regula pelo exemplo a tua vida.

O retrato é motivo bem urgente

Pra excitar-te a vontade adormecida;

Que a virtude, inda mesmo assim pintada,

Repreende a conduta relaxada.

As oitavas que se lêem no quadro ao centro, que figura a cena do passamento do patriarca, são estas outras:

I

Este que vês, cadáver animado,

Que sobre a dura terra jaz despido,

É da Itália o assombro venerado,

É o crédito de Assis esclarecido:

O Serafim Francisco, que o costado,

As mãos e pés o fazem conhecido,

Servindo de inscrição (de amor efeito)

Chagas nas mãos e pés, chagas no peito.

II

Nos paroxismos últimos da vida,

Já vacilante o edifício humano,

No leito jaz; porém a alma assistida

Do celestial alento soberano,

Na infalível do corpo despedida.

Não receia da morte o golpe insano,

Pois na desunião do corpo e alma,

Espera conseguir da glória a palma.

III

Mas o corpo modal na dura ânsia

(Pensão de toda a humana criatura),

Da vida à morte vê curta distância:

Antes que o cubra a térrea sepultura,

Aos seráficos filhos, com instância,

Roga o lancem despido à terra dura.

Pra que se veja em ato tão profundo

Que o mundo deixa como veio ao mundo.

IV

Alcança o que deseja, e já do leito

O concurso seráfico o levanta,

E da humildade o exemplar perfeito

No chão depõe a obediência santa.

Amante cruza os braços sobre o peito

E os olhos põe no céu, onde se encanta.

Seguindo o corpo e os olhos desta sorte

Da Terra o porto e dos Céus o norte.

V

Ó seráfico espírito que amante

De Cristo intentas imitar os passos!

Pois vendo a Cristo padecer constante

Na cruz em que rompeu da vida os laços,

Para seres a Cristo semelhante,

A cruz para morrer formas os braços!

De amor invento foi, pra seres visto

Na vida e morte imitador de Cristo.

VI

Quem não dirá, de assombro suspendido,

Ao ver-vos, Serafim crucificado,

Que ou em vós está Cristo convertido,

Ou estás vós em Cristo transformado!

Se Cristo em cruz por nós morreu ferido,

Por Cristo em cruz morreis também chagado.

Se em Cristo chagas fez o amor mais fino,

Em vós, chagas abriu o amor divino.

VII

Jacoba, que Francisco e aos seus em vida

Sempre favoreceu com mão piedosa,

Festa de amor, tragédia esclarecida,

Por aviso do Céu, se acha amorosa.

Mortalha e cera traz, bem advertida,

Prevendo em Roma a morte gloriosa.

E de Francisco aos pés com tanta pena

Assiste, qual amante Madalena.

VIII

A vista do espetáculo estupendo,

Do Serafim os filhos amorosos,

O rigor da saudade já prevendo,

O trânsito do pai sentem chorosos.

(continua...)

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