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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

Juliana teve medo ; mas, fazendo um esforço supremo, deixou-se ficar immovel no seu leito, e como para animar-se e ainda mais desejar a morte, foi cantando baixinho :

Esta lua tão formosa,

Esta noite deleitosa,

Este céo de lactea côr,

Este silencio profundo,

Este descanço do mundo

É tudo encanto de amor.

Cantou as tres estrophes do canto da seducção, repetio-as ainda tres vezes... quiz repetil-as ainda quarta vez, mas parou no meio da primeira estrophe, como se tivesse adormecido.

XXXIII.

No dia seguinte, Cândida achou trancada a porta do quarto de sua filha, e debalde chamou por ella em altos gritos.

Fábio acudio immediatamente á um recado instante da mãi afflicta e aterrada, e logo que chegou, comprehendeu que uma horrivel catastrophe tivera logar.

A porta do quarto foi arrombada, e Cândida e Fábio virão Juliana vestida de branca e morta, estendida no seu leito e no meio de um diluvio de flores.

O ar que se respirava, ainda era uma atmosphera de perfumes.

Juliana estava pallida; a morte porém não tinha ainda ousado desfigurar seu rosto encantador e formoso.

Cândida cahio desmaiada sobre o cadaver de sua filha.

Alguns momentes depois, Fábio encontrou sobre a mesa as duas cartas escriptas por Juliana; uma era dirigida a elle, outra a Cândida.

A carta de Fábio dizia assim :

« Fábio, querias sacrificar a tua reputação e o teu futuro para salvar-me, e eu jurei mostrar-rne digna, de ti ; cumpro esse juramento matando-me. Lembra-te d'aquella noite da festa dos meus annos, em que me fallaste do veneno das flores ?... eu te disse então :

— Fábio, se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-mehei com o veneno das flores. — A prophecia verificou-se, Fábio. Eu morro, e... morro amando-te. Adeus. »

Na carta que deixara á sua mãi, Juliana assim se exprimia :

« Perdão, minha mãi! é preciso que eu morra: não ha no mundo regeneração possivel para a mulher que se deixou seduzir. O mundo que tolera e talvez affaga o algoz, não perdoa a victima. Não ha para mim esperança, nem mesmo aceitando a mão e o nome do jovem que generosamente se avilta, pretendendo salvar-me. A morte anniquila tudo : a morte é o meu unico recurso. Adeus, minha querida mãi, adeus para sempre ! »

Cândida, ouvindo a leitura desta carta, exclamou desesperadamente :

— Oh ! minha desgraçada filha teve um accesso de loucura.

(continua...)

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