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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Bem! O que tu queres é pedir-me alguma coisa, e estás com estes rodeios. O que é?

- Faz? 

- Se não for um impossível. 

- Não deixe que o visconde venha à nossa casa. 

- Por quê? 

- Insultou-me! 

- Que fez ele, Guida? 

- Especulou com meu nome. 

- Como sabes? 

- É meu segredo. 

- Tens certeza? 

- Toda. 

Um instante depois o Soares trançando o braço ao visconde levou-o até o quarto dos chapéus, e disse-lhe: 

- Visconde, você sabe o provérbio: “Duro com duro não faz bom muro”. Nós somos dois espertalhões; não podemos embaçar-nos um ao outro; portanto cada um seu rumo. Aqui está seu chapéu.

- Isto quer dizer que me despede? 

- É conforme a maneira de entender. Sou em quem se despede de suas relações. Boa noite. 

Meia hora depois Fábio tornava à casa onde ia preparar-se para o baile. 

Ao passar pela rua da Ajuda, lembrou-se o moço de alguma coisa, que o fez retroceder o espaço de dois ou três edifícios, e penetrar em um corredor escuro. No fim havia uma escada, que chegada ao tope no primeiro andar, voltava para cima. 

Subindo a correr os dois lanços, achou-se em um sótão baixo e pequeno, composto de duas peças, uma das quais abria para a escada. Estava apenas cerrada a porta; não foi preciso bater. 

Ricardo escrevia à luz de uma lamparina de querosene. 

Uma semana havia que Ricardo se instalara em sua nova habitação. A fortuna lhe enviara um sorriso, bem escasso ainda, que não obstante luziu como aurora na sombria perspectiva de sua existência. 

Conseguira ao cabo de muita paciência a tradução de um folhetim, que lhe deixava uns setenta mil-réis por mês; e tivera uns dois processos policiais que, pagos mesquinhamente, lhe tinham metido no bolso uma nota de duzentos. Finalmente, procurando um cômodo, achara na Rua da Ajuda aquela metade de sótão mobiliado, a trinta mil-réis por mês incluída a comida; mas a dona da casa, uma senhora viúva, vendo que tratava com pessoa instruída, propôs-lhe como pagamento ensinar suas três meninas e dois rapazes; o que Ricardo prontamente aceitou. 

Fábio opôs-se à mudança, na idéia de que o amigo fosse levado pelo receio de ser pesado; mas Ricardo demonstroulhe que daquele modo promovia seus interesses. Além de não custar-he o cômodo nada, senão trabalho, gênero de que tinha boa provisão, podia entre os conhecidos da viúva obter novos discípulos. 

- E te sujeitas a isso? perguntara-lhe Fábio admirado. 

- O trabalho honesto honra; e este de ensinar é dos mais nobres, respondera simplesmente o paulista. 

No momento em que entrava o amigo, Ricardo escrevia à sua mãe, e confirmava-lhe as boas notícias que até então apenas lhe deixara entrever, receoso de afagá-la com falaz esperança. 

- Trabalhando sempre! disse o trêfego fluminense recostando-se na marquesa de vinhático. 

- Estou escrevendo para São Paulo, respondeu Ricardo com uma inflexão triste na voz.

- Oh! diabo!... É verdade, amanhã sai o vapor. Espera! 

De um salto chegou-se à mesa, tomou uma pena, e escreveu no primeiro bocado de papel que achou, estas palavras: La vita uniti 

Transcorreremo. 

- Toma; mete isso em tua carta! 

E acendendo o charuto, voltou à marquesa, onde espichou-se cantarolando o dueto da Traviata. Passado um instante ergueu-se; olhou indeciso para Ricardo que lhe dava as costas escrevendo; passeou a esmo pelo estreito aposento, e aproximou-se da mesa: 

- Queres um charuto?... É fazenda superfina!... Duque!... Já vês que para fumá-los é preciso ser príncipe pelo menos. Mas o Soares, que trata este mundo de resto, abarrota com eles aquela súcia acostumada ao trabuco de vintém! Fazia dó ver como atolavam as mãos nas bandejas de prata dourada!... Toma, não queres provar? 

- Deita-o aí, respondeu Ricardo metendo a cara na capa, e pondo-lhe o sobrescrito. 

Secou-se a musa ao Fábio com aquela indiferença do amigo; deu outra vez algumas voltas pela casa, e afinal decidiuse: 

(continua...)

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