Por José de Alencar (1875)
O sertanejo é supersticioso. A solidão, quando não a acompanha a ciência, inspira sempre êste feiticismo. Vivendo no seio da grande alma da criação, que êle sente palpitar em cada objeto, tudo quanto o cerca, animal ou coisa, parece ao homem do campo encerrar um espírito, que alí expia talvez uma falta, ou espera uma ressurreição.
Arnaldo acreditou que o Dourado chorava. O famoso corredor, que há sete anos desafiava os mais destemidos vaqueiros, carpia-se, porque afinal fôra vencido, e ia ser reduzido, êle, touro livre e brioso, a um boi de curral, ou talvez a um cangueiro.
O sertanejo ficou pensativo. Aquele boi que êle tinha ao arção da sela, era o seu triunfo como vaqueiro, pois quando êle o apresentasse, todos o proclamariam o primeiro campeador, e sua fama correria o sertão.
Aquele boi era mais ainda; era o prazer que D. Flor ia ter vendo o valente barbatão marcado com seu ferro; era a humilhação de Marcos Fragoso, cujas bravatas o tinham irritado, a êle Arnaldo; era finalmente a satisfação do velho capitão-mór, que se encheria de orgulho com a proeza do seu vaqueiro.
Entretanto quando o mancebo ergueu a cabeça, o movimento de generosa simpatia e fraternidade que despertara em sua alma a tristeza do boi vencido, tinha alcançado dele um sacrifício heróico. Resolvera soltar o Dourado.
Nenhum outro homem, dominado por tão veemente paixão, seria capaz dêsse ato. Mas o amor de Arnaldo vivia de abnegação; e eram êsses os seus júbilos. O pensamento de elevar-se até D. Flor, não o tinha; e se ela, a altiva donzela, descesse até êle, talvez que todo o encanto daquela adoração se dissipasse.
Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro, que trazia à garupa, e a que no sertão dá-se o nome de maca.
Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arrnajar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda.
Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão.
Essa flor, que tinha por estame uma inicial, significava o emblema da mulher a quem idolatrava. Seu timbre, sua glória, era gravá-lo no gado, como em todos os animais bravios, que seu braço robusto domava. Assim os submetia ao domínio e jugo da soberana de seu coração.
Por toda a parte, nas rochas, como nos troncos seculares, êle tinha esculpido êste símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paregens em nome de seu rei, êle, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sôbre toda a criação.
O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para quentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes têrmos e com um modo afável.
— Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não, ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e êsse foi Arnaldo Louredo.
O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter êle entendido, e continuou:
— Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, êsse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aquí, no peito. Olhe, meu Dourado.
O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que êle havia picado na pele, sôbre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fôra estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.
Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o Dourado sôbre a pá esquerda.
— Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?… Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto.
O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu.
Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.