Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Não se zomba senão do pobre; não se ridiculariza senão a ele. Dizei, por que é que sois o alvo de uma zombaria desprezível?... por que foi que vos lançaram uma alcunha insultuosa?... por que é que quando passais, a gente que vos vê sorri, e vos maltrata, lançando sobre vós um epíteto afrontoso?..
– Porque eu sou uma triste mulher velha, respondeu Irias.
– Não, senhora; é somente porque vós sois uma triste mulher pobre.
– Embora... embora; isso porém não me tira do meu pensar: a “Bela Órfã” te ama.
– Pois bem, ficai-vos com o vosso pensar.
– E eu hei de provar-te que tu te enganas com ela; e serás tu o primeiro que me virás confessar a injustiça que lhe estás fazendo.
– Será difícil.
– Freqüenta com mais assiduidade o “Céu cor-de-rosa”...
Cândido, que já se achava mais sossegado, tornou-se de novo rubro de despeito e vergonha.
– Eu não irei lá nunca mais... exclamou.
– Nunca mais?...
– E se lá tornasse merecia que me lançassem longe da porta como a um cão.
– Cândido!...
– Eu não irei lá nunca mais! repetiu com veemência o mancebo.
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E estava cumprindo à risca o seu propósito; dois serões haviam tido lugar depois da noite dos anos de Celina, e Cândido tinha faltado a ambos.
No começo da noite que se seguiu à do segundo serão, achava-se Cândido descansando no sótão do “Purgatório-trigueiro”, quando a velha escrava de Irias lhe anunciou o sr. Anacleto.
CAPÍTULO XXIV
A MOÇA E O VELHO
O VIVER da “Bela Órfã” estava sofrendo notáveis modificações.
Desde que Cândido deixara de aparecer no “Céu cor-de-rosa”, tornou-se mais constante e profunda a melancolia da moça.
De ordinário escondida no seu quarto, Celina comparava seus curtos dias de um amor nascente, com aqueles que estava passando de ansiedade e de dúvida, e conseqüentemente misturava saudades com lágrimas.
Os pesares desta ordem são mil vezes mais fortes e cruéis na mulher do que no homem, porque a sociedade impõe à mulher o dever de calar, e o homem pode sem corar desabafar-se contando-os, derramando-os na alma de um amigo. Ela portanto concentra a sua dor, revolve-se nela, devora-a em silêncio, o que dói mais certamente.
Sucedia isso a Celina. Apesar da amizade com que sua tia a tratava, não podia a moça esquecer-se da diferença de idade que havia entre ela e Mariana, e por isso, ainda quando pretendesse confiar a alguém os seus pesares, não se animaria nunca a escolher a viúva para confidente.
Em resultado a “Bela Órfã” fugia de tudo e de todos para viver com seu segredo, para pensar somente nesse amor que tão sem sentir lhe nascera no peito.
Todos os seus antigos e mais preferidos entretenimentos estavam esquecidos. O piano não mais se abria, as músicas descansavam, os livros tinham sido aborrecidos; porque também às vezes a pobrezinha, pretendendo vencer-se, tomava um romance, lia uma página inteira, e no fim dela, conhecia que lhe era preciso ler outra vez, porque sua atenção se distraíra, mas a leitura se repetia uma e dez vezes e o resultado era sempre o mesmo. Lia apenas com os olhos... com o pensamento não podia.
Era melhor não ler.
Um único de seus antigos costumes conservou intacto: ao romper da aurora ia sempre ao seu jardinzinho colher um botão de rosa... quem sabe se ele a observava oculto atrás da janela?
Era sempre uma esperança a de ser vista assim tão abatida e tão triste.
Até o velho Rodrigues perdera com as mudanças do viver da “Bela Órfã”; as sestas não se renovaram mais. E ele nem ouvia a doce voz de Celina, nem podia, acompanhado por ela, entoar suas baladas e antigos romances.
Foi indo assim a moça admirada de que ninguém, nem seu avô, nem sua tia, dissesse uma só palavra notando a ausência de Cândido, até que chegou a noite do segundo serão, depois da de seus anos.
O moço do “Purgatório-trigueiro” faltou a esse, como tinha faltado ao primeiro.
A aflição da “Bela Órfã” subiu de ponto. Ela conheceu que já tinha lágrimas que derramava em segredo, para esvaziá-lo; conheceu que lhe era absolutamente preciso, para ser consolada, falar a preço mesmo do que sofreria seu pudor de virgem.
Lembrou-se de uma sua amiga.
No fim do serão chamou Mariquinhas de parte, e disse-lhe:
– D. Mariquinhas, no último serão você me havia dito que teríamos tempo de conversar sobre alguma coisa, em qualquer dos dias que se seguissem...
– Ah! é verdade, respondeu a amiga.
– Então?
– Eu pedirei a meu pai que me deixe vir passar um dia contigo, d. Celina.
– Olha, depois de amanhã é domingo.
– Pois sim.
– Queres que eu peça a teu pai?...
– Não... ele me estima muito para me negar esse prazer.
– Então eu te espero...
– Depois de amanhã.
As duas amigas separaram-se.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.