Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Esteve um momento acordada... queixou-se ainda da cabeça; mas tornou a adormecer sossegadamente.
— Pobre menina! disse a velha.
Honorina tinha os olhos fechados; porém, estava ouvindo tudo com a curiosidade própria de um enfermo.
— E ele?... perguntou Raquel; sabe-se alguma notícia?
— Tristes novas, minha senhora, respondeu Lúcia.
— Pobre homem! disse Ema, deixou suas pisadas marcadas com seu sangue! nós suspeitávamos que ele havia ficado ferido; porém, assim... oh!... é bem triste!
Ouviu-se então um longo gemido... longo... arrancado do coração; Honorina tinha compreendido tudo.
O resto da noite foi cruel e terrível. A dor de Honorina transbordou.
Durante a noite o pensamento é mais arrojado e mais livre; e de ordinário o coração acompanha o pensamento, e ambos se deixam ver em seus vôos, tais como são.
Honorina nem mesmo tratou de esconder o pesar e a aflição que lhe causava aquela fatal nova; parecia ter orgulho de ostentar ambos; parecia querer dizer a todos — eu sofro... eu choro por ele!
Inventou-se e repetiu-se mil vezes uma história para abrandar a dor da interessante moça: jurou-se-lhe que um homem, a quem nenhum de seus amigos conhecia, mas que a tinha salvado, pouco depois se embarcara para a corte; que ele estava ferido sim, porém levemente; que sua vida não corria risco; que tudo ia bem... tudo o melhor possível.
Raquel, sem desamparar um só momento a sua amiga do coração, velou toda a noite por ela e pelo segredo do seu amor; animou-a... fechou-lhe a boca mil vezes, mil vezes deu uma falsa interpretação a seus gemidos para encobrir a verdadeira causa deles; e, finalmente, rendeu graças ao céu ao vê-la adormecer em seus braços ao romper da aurora.
Às dez horas do dia, Honorina despertou melhor e mais sossegada. Então ela se lembrou da terrível noite que se tinha passado... ouviu a relação da catástrofe... e conheceu que em tudo quanto lhe diziam do homem que a tinha salvado, só eram verdadeiras duas coisas: que ele se havia ferido ao salvá-la, e que nada se sabia do seu destino. Mas agora, já razoável; agora, com todo o seu pudor de virgem despertado, esforçou-se ela por sepultar sua dor no fundo do coração, ou por derramá-la somente no seio de Raquel, de cujos lábios ouvia palavras de amizade, que lhe acendiam na alma a esperança.
E, pois, com a dor no coração e a esperança na alma, Honorina, embora abatida e melancólica, mostrava ir restabelecer-se depressa; e assim esvaíram-se prontamente todos os receios que pela sua vida puderam ter seus parentes e seus amigos.
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Ao declinar da tarde desse dia as duas amigas tiveram de separar-se: bem quisera Raquel demorar-se mais; porém, seu pai, a quem sempre sobravam sérios negócios, já se tinha deixado ficar em Niterói um dia inteiro, só em atenção à filha do seu amigo.
No instante da despedida, Honorina e Raquel achavam-se a sós; haviam acabado de trocar um beijo, estavam ainda apertadas em estreito abraço, quando a primeira murmurou com voz trêmula:
— Raquel, minha amiga! eu não devo, nem quero ter segredos para ti...
— O que há, pois, Honorina?
— É que já não posso duvidar do que sinto; eu amo!... conheço, enfim, que amo, e muito!...
— Sim... sim... eu já o sabia, Honorina! balbuciou a custo a outra moça.
— E eu te queria ainda pedir...
— Dize!
— Raquel! tu és boa, tu és bela e virtuosa; e, portanto, tuas orações deverão chegar até o céu, como o perfume de uma pura flor!... e, pois, pela santa amizade que nos liga, pelo amor de teu pai, reza para que Deus abençoe e proteja o meu amor!...
— Sim... sim... sim... disse a amiga de Honorina com voz abafada.
Quando Raquel deixou a câmara de Honorina e foi juntar-se a seu pai para partir, este notou no rosto contraído de sua filha a expressão de um sofrimento acerbo... terrível... e profundamente concentrado.
XXI
Raquel
Raquel tinha deixado com seu pai a jovem cidade de Niterói; sentada em um dos bancos centrais da barca que os levava, a moça mergulhara seu espírito em profunda meditação; triste e silenciosa, ela havia abaixado a cabeça, como para esconder seu rosto de todas as vistas, e, no entanto, dois olhos estavam fitos nela, examinando seus menores movimentos, adivinhando seus mais ocultos pensamentos. Eram os olhos de seu pai.
Jorge era um homem de sessenta anos, alto, proporcionadamente gordo, tinha os cabelos e supercílios todos brancos, os olhos pardos, e não grandes; seu rosto era comprido e pálido; trajava sempre vestes pretas, seu andar era vagaroso e grave, falava muito poucas vezes, e quase nunca se ria: tudo isto dava-lhe um parecer melancólico, frio e severo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.