Por Lima Barreto (1911)
— Certamente é uma balela — duvidou Edgarda. — Não é. Há alguma coisa atrás disso tudo.
Macieira não acabou de dizer isto, quando Numa exclamou vitorioso.
— Ora! Ora!
— Que é? — fizeram os restantes a um tempo.
— Todos nós estamos com medo de fantasmas. Se Bentes der força a Contreiras e ele tiver votação, a Assembléia não o reconhecerá.
Pelas faces de Macieira brilhou um ligeiro sorriso, e Neves também ficou satisfeito; a filha, porém, depois de alguns momentos de reflexão, disse:
— Assembléia não vale nada.
— Como?
— Eles empregam a força e tudo adere.
A situação voltava de novo a ser obscura e, após algumas outras palavras, Macieira despediu-se para continuar procurando amigos que o salvassem, o apoiassem, evitando o golpe que lhe queriam desferir no seu prestígio político. Lembrou-se de procurar o irmão de Bentes; era um remédio heróico do qual não convinha lançar mão já; Precisava poupar-se e, ir logo ao Hildebrando, seria gastarse, lançar mão de um recurso desesperado.
Acudiu-lhe logo o nome de Fuas. O jornalista até bem pouco tempo tinha relações de cortesia com Bentes, mas desde que lhe escrevera a célebre carta de desafio em casa de Arlete, a intimidade entre ambos cresceu, como se fosse a de velhos camaradas de colégio. Ele devia estar no jornal. Quase nunca almoçava em casa. Lidos os jornais, logo bem cedo, saía, ia à redação, escrevia alguma coisa que a leitura lhe inspirava e corria a almoçar em algum restaurante da cidade.
O Diário Mercantil era um dos mais antigos jornais da cidade; e fora sempre extremado em matéria política. De mão em mão viera parar às de Fuas que não se enfeitava com o título de redator chefe; deixava-o a outro de mais fama, sendo ele de fato e também quase proprietário da folha,
Ocupava uma grande casa da Avenida; e, depois do O país e O Jornal do Comércio era o jornal mais bem instalado do Rio de Janeiro. A sua venda, sem ser grande, era considerável e a tradição da folha aparava bem as opiniões formalíssimas de Fuas.
Como quase todo o jornal do Rio de Janeiro, era deficiente e pouco preocupado com outros assuntos que não fosse política; mas, assim mesmo, dava fortunas, fortunas, que Fuas gastava com a liberalidade e a constância de um nababo oriental.
Fuas era amigo de Macieira. Tinham juntos negócios e o pôquer os tinha ligado indissoluvelmente. Podia bem ser que o jornalista, com artigos e palavras, demovesse Bentes de prestigiar Contreiras, porque tudo estava em Bentes. O atual chefe do interregno presidencial nada valia e diziam até que as salas e os quartos do palácio de Nova Friburgo já estavam arrumados ao gosto do general.
Como Macieira esperava, Fuas Bandeira estava no seu gabinete de trabalho, escrevendo em mangas de camisa. O charuto não o deixava.
— Tu por aqui?
— É verdade. Não sabes?
— De quê?
— Leste O Intransigente? — Li... Que há?... Ah! é verdade!
— Que pensas daquilo?
— Homem, filho, era de esperar. O exemplo partiu de cima e agora tens que agüentar. Já te tinha dito o perigo que corria a manobra.
— Mas... eu fui quem levantou, por assim dizer, a candidatura do general Bentes.
— Tu pensas que ele se ilude? que ele julga que deve alguma coisa a ti e aos outros?
— Homem... eu acho...
— Qual! Ele sabe perfeitamente que foram os camaradas que assustaram vocês e vão pô-lo lá. Não há por onde sair, meu caro; e entre um camarada, parente, além de tudo, e um paisano...
— Parente também.
— Parente, mas paisano, ele não tem que escolher. Olha: tu mesmo foste quem deu parte de fraco.
— Como?
— Não resignaste?
— Foi por...
— Sei: mas para que apresentaste o Malaquias?
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.