Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ana e Gaspar, ao lado do viúvo, chegaram aos mais belos e bem aproveitados dezesseis anos. O rapaz matriculou­se na Academia de Medicina, enquanto a rapariga, chamando a si os cuidados domésticos da casa, fazia as vezes de mãe junto à irmã pequena.

Mas, com volver­se púbere, entrou Ana logo a penar no próprio ninho e a procurar com os olhos, em volta dos seus primeiros devaneios de donzela, quem a ajudasse a construí­lo.

Ora, a casa do veterano era mais freqüentada por velhos e ásperos camaradas dele, gente tostada de pólvora e tabaco, entre a qual não encontraria de certo a tímida rola o companheiro desejado. E o coronel tão alheio parecia aos solitários arrulhos da filha, que a menina chegou a desconfiar que o pai se não queria separar dela.

Com mais três anos por cima, e sem que aquele o percebesse, começou a irmã de Gaspar a revelar perturbações mais sérias no organismo e a tornar­se sumamente nervosa e macambúzia.

Foi então que o caixeiro da taverna em frente da casa, um rapaz português de pouco mais de vinte anos, bonito e forte, deu em requestá­la com sorrisos e olhares ternos.

E o caso é que a filha do coronel, a princípio revoltada, depois apenas retraída, e afinal já hesitante, acabou por aceitar abertamente o namoro do caixeiro.

Trocaram cartas, e os protestos amorosos do rapaz, escritos com pouca ortografia e muito faro no dote da pequena, a esta enchiam de deliciosos anseios e a deixavam a cismar horas perdidas nas felicidades do lar doméstico.

Um belo dia autorizou­o ela a pedi­la, ao pai, e o rapaz, no primeiro domingo de descanso, enfiou um fato novo, embolsou a carta em que vinha a autorização do pedido, e apresentou­se ao veterano com um discurso na ponta da língua.

A resposta que teve foi uma formidável gargalhada, uma dessas gargalhadas escandalosas de soldado velho, mais pungentes e agressivas que qualquer formal injúria.

O pobre moço desceu as escadas cambaleando, ébrio de confusão e sufocado de cólera.

Esse moço era, um punhado de anos mais tarde, o jovial e próspero comendador Moscoso.

Ao sair da casa do coronel, Moscoso jurou vingar­se. Atravessou a rua apoplético e, metendo­se no cubículo que lhe servia de quarto de dormir, atirou­se ao catre com uma explosão de soluços.

À noite escaldava de febre. Foi uma noite de vertigem, cálculos de fortuna e planos de vingança. O caixeiro via­se mentalmente a economizar, a passar misérias, para ajuntar pecúlio e armar um princípio sólido de vida. As fontes estalavam­lhe. Sonhava­se rico, já cercado de considerações, levantando inveja nos vencidos, abrindo por todos os lados cumprimentos e sorrisos de adulação. Então é que aquele triste do coronel havia de saber o que era bom! Oh! ele, o pobre caixeiro, seria implacável no seu ódio! o coronel havia de pagar duro! havia de puxar pelas orelhas sem deitar sangue; havia de arrepender­se de lhe não ter dado a filha! Moscoso havia de ver Anita amarrada a um diabo, que a enchesse de maus tratos e necessidades! O tempo é que havia de mostrar

E inteiramente devorado por estas idéias, o caixeiro virava­se e revirava­se na cama, sem conciliar o sono.

Amanhecera abatido, cheio de febre e possuído de uma grande má vontade por tudo e por todos.

Desde então principiou para ele uma nova existência. Tinha uma idéia fixa: tratava­se agora de ajuntar dinheiro; estava disposto a suportar tudo, contanto que o capital se fizesse e avultasse!

Moscoso principiou por mudar de gênero de comércio; meteu­se para a rua da Saúde, arranjando­se em uma casa de café.

E o grande fato é que, ao fim de algum tempo, todo o seu esforço principiava já a produzir o desejado efeito, e o caixeiro contava todos os meses o fruto das suas economias, amontoadas com o sacrifício de todos os instantes.

Pôde então realizar uma idéia, que lhe trabalhava havia muito no cérebro: escrever no Jornal do Comércio uma série de mofinas contra o coronel.

Moscoso, uma noite depois do trabalho, foi à redação daquela folha e entregou a primeira à publicação.

A mofina dizia assim:

"Pergunta­se ao coronel Pinto Leite por que razão S. S. não entra em explicação de contas a respeito de certa viúva da cidade?... — A sentinela."

Consistiu nestas estranhas palavras a primeira mofina do comendador. Ninguém as sabia explicar, não tinham fundamento algum, eram inventadas; mas quem as lesse ficaria com o juízo suspenso, diria talvez consigo que ali andava misteriosa e grossa maroteira; e era isso justamente o que Moscoso desejava, era levantar dúvida, promover desconfiança, arranjar qualquer prevenção contra o coronel.

Este, quando viu a mofina, riu­se, persuadindo­se vítima de algum engano. Mas em breve se convenceu do contrário, porque o fato começou a repetir­se.

Moscoso punha já de parte certa verba para aquela despesa; a mofina entrou no seu orçamento ao lado do dinheiro para o cabeleireiro e para o rol da roupa suja. De quinze em quinze dias apareciam elas impreterivelmente, com uma regularidade impressionadora.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →