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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

E não tinha inventado nada para dizer a Emília. Em tal caso o que cumpria fazer era calar-se e esperar que o tempo tivesse, desfazendo o amor, minorado o sofrimento do desengano.

Calou-se, portanto.

Quando pôde estar a sós refletiu no procedimento de Valentim; uma soma enorme de ódio e despeito criou-se no seu coração. Vicente desejava estar naquele momento diante de Valentim para lançar-lhe em rosto a sua infâmia e a sua baixeza. Mas todas essas raivas contidas e tardias nada mudavam a situação. A situação era: Emília definhando, Valentim ausente. O que cumpria fazer? Distrair a moça para ver se ela voltava à vida, e ao mesmo tempo se o primeiro amor se desvanecia naquele coração.

Nesse sentido Vicente fez tudo quanto o amor de pai lhe sugeriu, sem que nos primeiros dias nada pudesse conseguir. Mas os dias se passavam e a dor, se não desapareceu de todo, ao menos não era tão ruidosa como outrora. Três meses se passaram assim, e desde a única carta que Valentim escreveu a Vicente, nunca mais houve uma só letra, uma só palavra dele.

Mas no fim desses três meses apareceu uma carta. Enfim! Vicente recebeu-a contente e não quis logo comunicá-la a Emília. Quis lê-la antes. Era longa: leu-a toda. Dizia Valentim:

Meu caro sr. Vicente. Se V. Sa. não compreendeu que a minha união com D. Emília era desigual, mostra ter muito pouca prática do mundo. Em todo o caso é digno de desculpa, porque eu também tive um momento em que não reparei nisso, que aliás não era muito de admirar, atenta a maneira por que tinha preso o coração. Tinha preso, tinha. Para que negá-lo.? D. Emília é cheia de encantos e de graças; eu sou moço e ardente. O amor pôs me poeira nos olhos.

Enquanto eu estava nesse estado inteiramente de rapaz apaixonado, compreende-se facilmente uma fantasia de momento. Então, como viu, fizemos ambos mútuas promessas.

Mas, não há como o mar para dissuadir os homens, ainda os mais apaixonados, de algumas idéias extravagantes que tenham em sua vida.

O mar fez-me bem.

Quando cá cheguei tinha o espírito mais lúcido e o coração mais calmo. Reparei que se lá fico mais tempo destruía dois princípios de minha vida.

O primeiro é o de nunca olhar para baixo; o segundo é o de não sacrificar a minha liberdade a ninguém, de baixo ou de cima.

Este sacrifício era inevitável se eu realizasse o casamento com D. Emília, pessoa a quem, aliás, tributo a maior veneração.

Mal me achei aqui e reconheci esta situação pensei logo em dizer a V. Sa. quais eram as minhas intenções; mas era cedo, e talvez isso produzisse maus resultados no, tocante à sensibilidade de D. Emília.

Por isso escrevi-lhe aquela carta, única que lhe escrevi, e na qual eu lhe dizia mil tolices tendentes a provar que ainda amava a filha de V. Sa.

Depois que recebi uma carta que V. Sa. me contava umas coisas realmente enfadonhas é que eu senti tê-las provocado. Mas, uma vez convertido ao bom senso, fora tolice voltar atrás; calei-me à espera de que passas-se mais tempo.

Hoje creio que já as dores terão passado, e salvo ainda a ocasião para dizer-lhe todos estes meus pensamentos com aquela franqueza própria de um cavalheiro como eu. Não será de falta de franqueza que V. Sa. me acusa.

Portanto, e visto o mais dos autos, instituo a V. Sa. a palavra que me deu de dar-me sua filha por esposa, presente este que eu aceitava com as mãos abertas a não sem os supraditos princípios que eu enunciei e que são e serão sempre a norma de minha vida. Resta-me informar a V. Sa. dos motivos que me trouxeram de lá para cá. Não foi nenhum motivo de missão ministerial, nem coisa que com isso se pareça. Os motivos foram dois: o primeiro, certo pressentimento de que eu estava fom dos eixos tentando casar com D. Emília; o segundo, ir receber a herança daquela célebre tia de quem eu lhe falei algumas vezes e que acabava de morrer.

Ha de convir que não podia tê-los mais poderosos.

Terminarei com um aviso salutar.

Naturalmente ao receber esta carta V. Sa. prorrompe contra mim e vai derramar em uma folha de papel todo o ódio que me votar.

Declaro que será trabalho inútil. E outro princípio meu: não responder a cartas inúteis. Dito isto não o enfado mais. Valentim.

A insolência desta carta produziu em Vicente um efeito doloroso. Não era só a fé de uma moça que fora iludida; era também a dignidade de pai e de ancião que o inconsiderado moço ultrajava, no velho pai de Emília.

Vicente, quando acabou de ler a carta, amarrotou-a com furor e levantou-se da cadeira pálido e trêmulo.

Nesse momento apareceu Emília, e vendo o pai naquele estado de agitação, correu para ele:

— Que tem, meu pai?

— Que tenho? É esta carta...

— Esta carta!?

E Emília procurava ler as folhas amarrotadas que Vicente lhe mostrava sem as largar das mãos.

(continua...)

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